De: Otto Preminger. Com Carol Lynley, Keir Dullea, Laurence Olivier e Martita Hunt. Suspense, Reino Unidos, 1965, 106 minutos.
Vamos combinar que, se não chega a ser exatamente um subgênero do cinema, a vertente dos suspenses sobre pessoas que desaparecem para, mais adiante, terem a sua própria existência questionada, tem as suas obras marcantes. Do clássico A Dama Oculta (1938), de Alfred Hitchcock - aliás, um verdadeira mestre também nessa corrente -, à suspenses mais atuais, como, Plano de Vôo (2005), não foram poucas as produções que utilizaram essa narrativa de paranoia em que a tensão migra, em certa medida, do sumiço em si para um questionamento à respeito da saúde mental dos envolvidos. Especialmente em situações em que o protagonista jura de pé junto que o desaparecido realmente existe - ainda que no entorno, as dúvidas estejam postas. E é exatamente esse o caso do agoniante Bunny Lake Desapareceu (Bunny Lake Is Missing), obra dirigida por Otto Preminger, que entrou recentemente no catálogo da HBO Max.
Na trama acompanhamos a jovem Ann (Carol Lynley), que está de mudança para a Inglaterra, acompanhada do irmão Steven (Keir Dullea), um jornalista que está a trabalho no Reino Unido. Tudo parece mais ou menos dentro da rotina: malas entregues, novo apartamento sendo aos poucos habitado, adaptação ocorrendo. Bom, isso até o momento em que Ann vai até a pré-escola local para buscar Bunny, a filha de apenas quatro anos - é o seu primeiro dia no educandário - para, depois de alguns instantes de desespero, perceber que a pequena desapareceu sem deixar rastro. A professora que deveria saber de sua guarda está no dentista. A tia da cozinha não sabe de nada. As mães de outros alunos não se recordam bem da novata. No refeitório ninguém parece ter notado a sua presença. Pior do que isso, depois da polícia ser chamada, parece haver algo muito estranho naquele caso: Bunny realmente existe? Ou é fruto da imaginação de Ann?
Hábil na construção da tensão, Preminger - que aqui adapta um popular romance lançado nos anos 50 -, parece disposto a desviar a nossa atenção o tempo todo, adicionando camadas de incerteza à trama. Por exemplo, logo que Ann chega ao novo apartamento, ela é inquirida pelo excêntrico Horatio Wilson (Noel Coward), o senhorio do local - um poeta, dramaturgo e apresentador de rádio aposentado, de modos estranhos que, não bastasse toda a esquisitice do comportamento, ainda assediará a protagonista mais adiante. Outra distração são as máscaras africanas, que poderiam sugerir pistas falsas, ainda mais quando integradas ao cenário em que o mesmo Wilson se encontra. Outros brinquedos - como os da loja de bonecas -, objetos perturbadores, como o rádio da extravagante senhora Ford (Martita Hunt), uma residente da escola que parece cheia de segredos, pessoas que aparecem inesperadamente e outros elementos de significados ambíguos reforçam a ideia de drama psicológico entre o real e o imaginário, o concreto e o abstrato.
[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Claro que o espectador mais atento talvez consiga solucionar os enigmas mais cedo - e as pistas para essa conclusão são ao mesmo tempo divertidas e macabras, como no caso da primeira sequência do filme, em que Steven simplesmente recolhe um coelhinho de pelúcia do chão (um bunny), levando-o junto antes de ir ao encontro dos homens da mudança. O mesmo valendo para a sombra eventualmente ampliada do sujeito, nas cenas internas mais claustrofóbicas. Ou mesmo nas discussões com o detetive Newhouse (Laurence Olivier) que se desenrolam entre provocações, ambiguidades e frases de duplo sentido. Conspirações, traumas de infância, solidão e outros temas são salpicados aqui e ali, num thriller de desfecho eletrizante, em que Ann precisa enganar o próprio irmão, que encarna uma versão psicologicamente tão desequilibrada quanto o vilão de O Mensageiro do Diabo (1955). Preminger já tinha uma carreira de sucesso quando filmou Bunny Lake - Laura (1944), Passos na Noite (1951) e Anatomia de Um Crime (1959) são só alguns a terem inscrito seu nome na história. E, vá lá, talvez esta tenha sido sua última grande obra.

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