sexta-feira, 19 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Kevin Morby (Little Wide Open)

Vamos combinar que existe uma beleza meio sofisticada e um tanto sutil na forma como Kevin Morby descreve o meio oeste e o sul americanos, com suas pequenas cidades hipocritamente conservadoras, de jardins bonitos e cerquinhas brancas, ladeadas por estradas que levam às montanhas - aquele habitat de imaginário americano típico, em que o senso de comunidade contrasta com pequenas opressões, com homens e mulheres coabitando esse espaço, cumprindo seus rituais, crescendo, sonhando, se frustrando. E em linhas gerais as suas cordas nostálgicas, no limite entre o indie, o folk e o rock alternativo, parecem traduzir bem a ideia desse ambiente idílico, capaz de tornar palpáveis o deserto, a igreja e os postos de gasolina, num sentimento quase cinematográfico. Talvez nostálgico. Foi meio que assim em toda a sua discografia, não sendo diferente no recente Little Wide Open, o oitavo registro da carreira.

 


Da abertura com Badlands, que não faria feio na trilha sonora de um faroeste moderno, com sua letra intuitiva a respeito da rudeza geográfica desses locais, até a conclusão com Field Guide for the Butterflies, Morby elabora uma série de canções meditativas, em que o contraste entre a eventual suavidade das melodias e crueza das letras, equilibra à perfeição a percepção do campo (ou do interior) como um local tranquilo e familiar, mas que sempre parece guardar algo abaixo da superfície - ao estilo do que vemos em filmes como Pecados Íntimos (2006), de Todd Field. Um bom exemplo nesse sentido, pode ser percebido na poderosa 100.000, que rumina sobre esses locais isolados, com baixa densidade populacional, mas que carregam tensões meio invisíveis no que diz respeito às expectativas sociais e até do que é ser um "homem" típico dos Estados Unidos (Morra pelo seu País / Ou uns pelos outros / Com seus carros musculosos / Na frente da garagem). Outras canções de grande beleza, como Javelin, Dandelion e a faixa-título valem ser conferidas, nesse disco que tem produção de Aaron Dessner, do The National, o que é sempre um bom indicativo.

Nota: 8,0 

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