quinta-feira, 25 de junho de 2026

Novidades em Streaming - O Órfão (Árva)

De: László Nemes. Com Bojtorján Barabas, Andrea Waskovics, Elíz Szabó e Marcin Czarnik. Drama, Hungria / França / Reino Unido / Alemanha, 2025, 133 minutos.

Um filme sobre a procura de um filho por seu pai, mas que também pode ser lido como uma alegoria para a busca de uma Pátria por uma identidade que parece perdida. Em linhas gerais não é exagero dizer que O Órfão (Árva) - o enviado da Hungria para a mais recente edição do Oscar e que estreou na última semana na Mubi - parte de um microcosmo que envolve uma família traumatizada não apenas pela segunda guerra, mas também pela ocupação soviética, imediatamente após o conflito. Com as feridas abertas como um todo no tecido social de uma nação que, no limite, parece ter trocado um regime ditatorial por outro - no caso o nazismo pelo stalinismo húngaro. Sim, talvez esse contexto não seja algo tão simples assim de se entender, ainda mais se levarmos em conta o fato de, inicialmente, a Hungria ter sido aliada dos alemães para, mais adiante, ser invadida e saqueada pelos militares de Hitler. O que resultaria em milhares de judeus deportados para campos de extermínio.

No filme de László Nemes - do agonizante vencedor do Oscar O Filho de Saul (2015), que também tem a guerra como pano de fundo -, o conflito já se encerrou há mais de uma década. O ano é 1957 e o protagonista - o pequeno Andor (Bojtorján Barabas) -, após ter sido resgatado dez anos antes por sua mãe, Klára (Andrea Waskovics), uma sobrevivente do holocausto, é detido pela polícia junto com outros adolescentes por, supostamente ter participado da Revolução Húngara no ano anterior, ocasião em que estudantes, professores, intelectuais, artistas e outros trabalhadores se rebelaram contra o domínio soviético. Milhares morreram e muitos fugiram do País. Em linhas gerais, Andor acredita que seu pai, um dos desaparecidos, possa estar vivo em algum local - aliás, ele tenta se "comunicar" com o genitor em uma espécie de porão abandonado. Mas sem nunca ter certeza disso.

 


Em paralelo o rapaz, que parece saído de alguma obra do neorrealismo italiano - o que é reforçado pela fotografia granulada e dessaturada das ruas decadentes de Budapeste, com sua arquitetura antiquada e ambientação urbana opressiva (com a presença de militares por todos os cantos) -, especialmente por suas andanças infinitas ladeando prédios e terrenos ermos, mantém uma graciosa amizade com Sari (Elíz Szabó) que, secretamente, ajuda a manter seu irmão escondido em uma habitação abandonada (ele seria um revolucionário sendo procurado pelo Estado). Já outro amigo de Andor, Geza (Marcin Czarnik), um ator de teatro, parece ser aquilo que mantém seu vínculo não apenas com a humanidade, mas também com a identidade de seu povo e de sua família (já que seu pai era o proprietário do cinema local). Especialmente em um cenário de vigilância, prisões políticas e opressão a opositores. 

A desilusão é profunda - e parece ampliada em uma obra que tem sua própria medida de tempo, desenrolando-se sem pressa, com seus pequenos eventos diversos, sejam as idas ao cinema e a sinagoga e os encontros familiares, se espalhando de forma vagarosa. E como se desgraça pouca não fosse bobagem, tudo piora quando aparece na vida de Andor e de sua mãe um certo Mihály Berend (Grégory Gadebois), um sujeito tão misterioso quanto truculento que alega ser seu "novo pai" (e que teria ajudado Klára a se esconder dos nazistas). Estiloso do ponto de vista técnico - talvez até com certo exagero nesse sentido, o que poderia desviar a atenção para o que realmente importa em termos de temática -, o filme utiliza a cor vermelha dos balões e de outros objetos, como uma metáfora para a onipresença dos comunistas em solo húngaro. Da mesma forma, a violência que emerge do boxe como esporte, em substituição ao caráter lúdico do futebol em uma época do auge de Puskas, também pode funcionar como forma de evidenciar certo cansaço de um povo, há tanto oprimido. Sim, pode ser muita coisa para elaborar em uma produção eventualmente exaustiva com suas mais de duas horas. Mas não dá pra negar que é um esforço fílmico notável.

Nota: 8,0 

 

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