segunda-feira, 15 de junho de 2026

Pitaquinho Musical - Olivia Rodrigo (you seem pretty sad for a girl so in love)

Poucas vezes em uma obra literária a aproximação entre o que sentimos no amor e na doença - ambos capazes de produzir sintomas físicos como perda de apetite, desconfortos gastrointestinais, palpitações, insônia e ansiedade -, foi tão metaforicamente bem evidenciado, como no clássico O Amor nos Tempos do Cólera. Se apaixonar, afinal, tanto para Florentino Ariza, o protagonista da obra do colombiano Gabriel García Marquez, como para uma jovem cantora de vinte e poucos anos, como a Olivia Rodrigo, pode ser conviver, permanentemente, com essa dicotomia. Essa dor que parece mais a de uma doença infecciosa, mas que também pode ser só as borboletas no estômago agindo sobre nós de forma avassaladora. E se o tema não chega a ser uma novidade, é preciso sabedoria para abordá-lo, o que Olivia parece ter de sobra mesmo em sua juventude, como fica claro em you seem pretty sad for a girl so in love (aliás, a ambiguidade já surge no título), o terceiro registro de inéditas da artista.

 


E, bom, aqui no Picanha a gente é suspeito em falar, já que tanto SOUR (2021) quanto GUTS (2023) figuraram na nossa lista de melhores do ano (ambos na terceira colocação), especialmente pela capacidade única da cantora em condensar a experiência de chegar à vida adulta e amadurecer meio que na marra, não apenas com suas letras formidáveis - em músicas como Deja Vu e Making the Bed -, mas também com suas melodias pouco óbvias, com seus sintetizadores existencialistas e uma nebulosidade indie pop hipnótica. Menos riot grrrl (talvez para tristeza de alguns) e rock à Sleater Kinney e mais sintetizadores perfumados pelos anos oitenta - o que fica evidente não apenas na participação de Robert Smith, mas na sonoridade eventualmente adocicada, a artista constroi uma verdadeira fábula dividida em duas partes distintas, em que paixão surge não como algo oposto à dor e, sim, como algo intrínseco a ela. É como um estado febril em que começamos eufóricos para, logo mais, mergulharmos em um torpor que parece nos deixar tristes, mesmo quando felizes. Sim, talvez seja muita divagação ou excesso de interpretação para um mero álbum de música pop. Mas o caso é que canções como drop dead, maggots for brains, u + me + <3, my way, stupid song, the cure e what's wrong with me são irretocáveis. Não é exagero.

Nota: 9,5 

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