segunda-feira, 22 de junho de 2026

Novidades em Streaming - O Drama (The Drama)

De: Kristoffer Borgli. Com Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Hailey Gates e Mamoudou Athie. Comédia / Drama / Romance, EUA, 2026, 105 minutos.

Em uma das sequências mais esquisitas de Serotonina, de Michel Houellebecq, o protagonista Florent-Claude elabora um plano macabro na sua mente: especialista em tiro à distância, ele imagina como seria assassinar, a sangue-frio, o filho pequeno de uma antiga namorada. Em seu delírio sombrio - aliás, algo meio típico nos cínicos protagonistas masculinos do escritor francês - ele chega a engendrar detalhes de sua intenção (como posicionaria a arma, melhor momento para atirar, etc). Por fim ele não coloca o plano em prática, ainda que o leitor saia horrorizado daquele momento. A ponto de eu nunca mais ter esquecido desse instante da obra. E, bom, aí chegamos por linhas meio tortas em O Drama (The Drama), filme do diretor Kristoffer Borgli - dos ótimos Doente de Mim Mesma (2022) e O Homem dos Sonhos (2023) -, que recria meio que essa ideia: qual foi a pior coisa que já imaginamos fazer ou já fizemos em nossas vidas? E como isso afeta a nós ou aqueles que nos rodeiam?

Verbalizar, afinal, aquilo que está debaixo de muitas camadas do que se imagina um código de ética ou uma moral inquestionáveis, pode não ser tarefa fácil. Decisões erradas todo o mundo toma, mas e quando elas podem gerar traumas, dores ou coisa pior para os envolvidos? Verdade seja dita que a ideia dessa produção modesta e com bons atores é até boa - o que me fez ir ao encontro dela. Pena que, ao cabo, ela seja tão trivial. Na trama, Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) estão prestes a se casar. O início tem certa leveza, com a dupla discutindo com seus respectivos padrinhos e madrinhas os votos - o que deve ou não ser incluso no texto, em meio a lugares-comuns e clichês engraçadinhos que remontam a sua trajetória. Aliás, trajetória que se inicia de forma meio estranha, com Charlie parecendo um stalker meio afobado, em sua intenção de se aproximar de Emma, enquanto ela lê tranquilamente em uma cafeteria (o livro, seu nome é O Estrago, é fictício, infelizmente). 

 


Mais adiante e ainda mais perto do matrimônio, em meio a debates a respeito da substituição ou não da DJ da festa por um suposto vício em drogas, o casal se reúne com o casal de amigos Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie). A conversa descontraída ganha tons mais sérios quando Mike instiga Rachel a revelar qual a pior atitude que ela já tomou em sua vida e ela concorda, desde que todos na mesa façam o mesmo. Mike começa, contando como, na juventude, em companhia de uma ex, usou-a como escudo humano durante um ataque feito por um cachorro. Já Rachel, fornece detalhes de como teria prendido um irritante menino mais novo que ela em um armário em uma habitação abandonada no meio de um bosque. Na vez de Charlie ele conta meio envergonhado sobre ter praticado cyberbullying com um antigo colega, meio que destruindo sua vida. E aí chega Emma que [SPOILERS A PARTIR AQUI], meio que pesando o clima, relata como, em sua juventude, esteve muito perto de promover um tiroteio em massa na sua escola, com o rifle de seu pai (com um evento meio aleatório lhe impedindo, por mais que o detalhamento do plano estivesse prestes a sair do papel).

A informação meio que quebra o equilíbrio não apenas do casal, que até aquele momento parecia apenas perfeito, mas também da relação com seus amigos, que passam a evitar Emma, atribuindo-lhe uma culpa retroativa por algo que ela não fez mas que se configura em um dos grandes traumas da era moderna nos Estados Unidos (um País que, se bobear, permite comprar pistolas e revólveres no mercadinho da esquina). O fato de Emma ser uma menina negra que sofria bullying em sua escola é um tema praticamente ignorado e que poderia tornar a narrativa muito mais complexa e potente do que sugere sua trama de humor meio sombrio em que paira no ar a dúvida sobre se ela ainda seria capaz de praticar tal ato. Aliás, pior do que isso, a obra sequer cogita a possibilidade de todos eles, como adultos, simplesmente conversarem a respeito, trazendo angústias, sofrimentos, traumas e memórias que poderiam representar uma cura. Ao contrário, Charlie fica brochado e de muxoxo pelos cantos, enquanto a irritante Rachel simplesmente se afasta sem muita explicação. Pra piorar o terço final joga o ápice do absurdo pro próprio casamento, tentando uma solução mágica à moda Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004). Infelizmente não cola.

Nota: 4,0 

 

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