De: Jelle de Jonge. Com Leny Breederveld e Martin van Waardenberg. Comédia / Drama / Romance, Holanda / Bélgica, 2024, 100 minutos.
Vamos combinar que os filmes sobre idosos perdendo a memória - seja por Alzheimer, demência ou qualquer outra doença degenerativa - e tendo de lidar com a devastação emocional causada por situações do tipo, já se tornou quase um subgênero do cinema. De obras densas e mais sérias como Meu Pai (2020) ou Vortex (2021) à produções mais leves e divertidas, como no caso de Ella e John (2017) ou Viver Duas Vezes (2019) não foram poucos os filmes a abordarem o tema - conectando-o, em muitos casos, a assuntos como memória, finitude, perda de identidade e mesmo diferenças geracionais. Em alguma medida, tudo isso se encontra no adocicado Uma Viagem Para Recordar (De Terugreis), filme holandês que foi o enviado ao Oscar na edição do ano passado - não chegou entre os finalistas - e que agora chega para aluguel em plataformas como a Amazon Prime e a Apple TV.
Bom, como um filme de comédia, não é demais dizer que essa é uma obra com um bom senso cômico, que emerge em muitas ocasiões do fato de o mundo atual parecer meio complicado demais para os idosos. Em tempos em que tudo soa tão urgente, tão veloz, tão tecnológico, parece um contrasenso só querer um pouco de paz, diante da televisão. O que talvez explique o comportamento excessivamente ranzinza, aborrecido de Jaap (Martin van Waardenberg), que parece uma versão mais irritada e caricata de Larry David, que não deseja mais cantarolar no coral da Igreja. Com o seu mau humor piorando quando ele percebe que a esposa Maartje (Leny Breederveld) está perdendo a memória. Esquecendo das coisas. Se perdendo em lugares. O casamento desgastado já dura quase meio século, mas ainda há espaço para o amor. Será que há?
As diferenças de personalidade de ambos - Maartje ainda parece disposta a viver experiências, curtir a vida, até mesmo namorar ou transar - fica ainda mais evidente quando a idosa enfia na cabeça que quer visitar um amigo que reside na Espanha e que ela não vê há décadas. Para Jaap sair de casa para tal empreitada parece ser mais ou menos como a pior coisa já inventada para se fazer no planeta, mas após uma situação em que a esposa se perde pela cidade, ele aceita entrar no carro. E rodar. E, claro, a partir dali a experiência ganha contornos de road movie com trilha sonora calorosa, lembranças afetuosas de lugares, objetos e pessoas do passado e um pouco de caos, claro, afinal a memória de Maartje vai falhar, nos dando aquele choque de realidade. Fora a surra que a dupla levará de qualquer aparato mais tecnológico que cruze seu caminho, como no momento em que a ambos sofrem pra abrir a porta do hotel.
Ok, esse é aquele filme que não doi, mas ainda parece que falta um pouquinho a mais para que a gente se conecte ou se comova verdadeiramente. Com a coisa se tornando um pouco mais do que uma coleção de situações meio aleatórias que se unem em uma história de um casal de idosos em viagem. Por mais que a sequência em que Jaap finge lutar com as vozes da cabeça de Maartje seja um esforço carismático, ali pelas tantas tudo vai se repetindo e meio que cansando. Ainda que a gente fique, de fato, reflexivo ao pensar no etarismo como um problema dos nossos tempos, especialmente em instantes que mostram academias apinhadas de jovens de corpos gostosos (o que se repete em outdoors pela cidade), ao passo em que a dupla quase bate um carro alugado por ele ser automático. É agridoce, sem pressa e nos faz lembrar da importâncias dos vínculos afetivos, das conexões. E era meio que só isso.
Nota: 6,5

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