De: Jan Komasa. Com Diane Lane, Kyle Chandler, Phoebe Dynevor, Dylan O'Brien, Madeline Brewer e Zoey Deutch. Drama / Suspense, EUA, 2025, 112 minutos.
Não sou (e nem pretendo ser) pai, mas não deve ter nada mais amedrontador nos tempos modernos de channers, redpills e incels, do que ver seu filho seduzido pela extrema direita. Ou por ideias autoritárias quaisquer - que dificultam o diálogo, o respeito às diferenças e mesmo à democracia como um todo. Já vimos isso em produções recentes como O Jovem Ahmed (2019), dos Irmãos Dardenne, o francês Brincando Com Fogo (2024), e na série Adolescência (2024). Sim, e se uma das drogas mais pesadas da atualidade é a desinformação, que contribui para a derrocada institucional e para o avanço de uma tirania fundamentalista que mescla política e religião, obras como O Aniversário (Anniversary), que está disponível na Amazon Prime, vêm para nos relembrar do potencial destruidor desse fascismo que fagocita tudo a sua volta, como uma ameba gigantesca.
Em alguma medida, o cinema provocativo de Jan Komasa já havia aparecido no excelente Corpus Christi (2019), que foi o enviado ao Oscar pela Polônia naquele ano. Filmando nos Estados Unidos mais turbulentos do que nunca, aqui ele nos apresenta a uma pacata família de classe média que possui uma espécie de tradição: a de celebrar o aniversário casamento de Ellen (Diane Lane), uma professora universitária de verve democrata e Paul (Kyle Chandler), proprietário de um modesto restaurante, reunindo os quatro filhos para uma festança. Só que no evento que celebra as bodas de prata dos dois, o filho Josh (Dylan O'Brien) aparece com uma nova namorada: a misteriosa e bem educada Liz Nettles (Phoebe Dynevor) que, mais adiante, Ellen reconhecerá como uma ex-aluna da Universidade de Georgetown que havia lançado, oito anos atrás, um ensaio com ideias totalitárias em que defende que o Estado seja controlado por um único partido político - tendo os demais como inimigos declarados.
E como ousadia pouca é bobagem a nova nora não apenas presenteia Ellen com seu novo livro, um enorme tomo chamado de A Mudança: O Novo Contrato Social, como ainda coopta Josh para entrar para esse partido (ou ideologia) que, aparentemente recebe um caminhão de dinheiro de uma empresa de tecnologia e ciência chamada Cumberland (onde ambos trabalham), fazendo a festa da galera do QAnon que tá "cansada de tudo o que está aí", mas que na hora de melhorar a democracia fazendo-a evoluir, opta por acabar com a mesma democracia. Irritante de uma forma poucas vezes vista nesse ano - méritos de Dynevor, vista em Bridgerton - Liz é aquela pessoa de fala mansa, que vai avançando seus tentáculos pelas entranhas dos Taylor, contaminando todos a sua volta, para o bem ou para o mal - ainda que ela tenha pouca adesão com as demais irmãs de Josh, a advogada ligada a causas ambientais Cynthia (Zoey Deutch), a ativista e artista lésbica Anna (Badeline Brewer) e a jovem candidata a cientista Birdie (Mckenna Grace).
Após um salto temporal de dois anos, Liz anuncia que está grávida, ao mesmo tempo em que suas ideias tomam corpo - com os adeptos adicionando às fachadas de suas casas uma nova bandeira americana, que indica a adesão ao grupo. Para os "desviantes" - e qualquer semelhança ao Brasil da família Bolsonaro e seu forte apelo de agressão à minorias já vulneráveis por si só, não é mera coincidência - resta a perseguição política e a vigilância extrema de um Estado que passa a se comportar como uma versão 1984 à moda Partido Republicano (ou seja, bem real). Quando Anna realiza uma apresentação de stand up subversiva, provocativa e de resistência, ela é atacada tendo de fugir. E a cada novo encontro familiar dos Taylor, que sabe-se lá porque insistem em estar juntos, como se os laços sanguíneos representassem uma necessidade umbilical eterna, a coisa vai escalando. Piorando cada vez mais. Com todos devastados, deprimidos, mortos por dentro. A alegria de viver representada pelas cores fortes, de figurinos mais vibrantes, vista no começo do filme - mérito do desenho de produção - vai dando lugar aos tons acinzentados, sombrios, que revelam o estado de espírito de todos ali. Quando quase ao final toca pela segunda vez a música Don't Dream It's Over, do Crowded House, é impossível não marejar os olhos. Sem muito espaço para um final feliz, a experiência serve mais como um alerta do potencial absolutamente destrutivo causado pela extrema direita. Nunca amigos, parentes, vizinhos, estiveram tão distantes, tão brigados, tão desalentados. Uma dor que, ao que parece, custará a passar.
Nota: 8,5

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