quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Novidades em Streaming - Moscas (Moscas)

De: Fernando Eimbcke. Com Teresita Sánchez, Bastian Escobar e Hugo Ramírez. Drama / Comédia, México, 2026, 99 minutos.

Devo admitir que, assim que comecei a assistir ao premiado Moscas (Moscas), novidade da Mubi nesta semana, me recordei imediatamente de Fly, o clássico e divisivo episódio da terceira temporada de Breaking Bad - que é aquele em que Walter White (Bryan Cranston) constata a presença de uma mosca no seu higieniquíssimo laboratório de produção de metanfetamina. O que faz com que ele empreenda uma verdadeira missão particular, no sentido de tentar eliminá-la. Na obra do diretor Fernando Eimbcke também é uma mosca que perturba a tranquilidade de Olga (Teresita Sánchez), em sua rotina ordinária de partidas de sudoku ao computador e outras mesmices cotidianas. Só que há uma diferença entre Walter e a sua obsessiva necessidade de controle, que é parte de sua deterioração psicológica e Olga, que apenas abre a janela para expulsar o inseto. O que funcionará como uma alegoria do exterior que, aos poucos, invadirá sua rotina, com seus barulhos, movimentos, pessoas.

Olga mora sozinha, mas está mal de grana. Pior, uma grave unha encravada que, inclusive, dificulta seu movimento, exigirá dela um investimento de três mil pesos para o tratamento. Uma cirurgia que não é complexa, mas é cara. Para quem conta as moedas a cada ia ao armazém ou à farmácia, trata-se de um dinheirão. Em busca de alguma solução, a protagonista - uma figura taciturna, rude, de carisma negativo -, oferece um quarto do seu apartamento para interessados em alugá-los por curtos períodos. Especialmente para familiares que acompanham adoentados no hospital vizinho e que não possuem muitos recursos - sendo exatamente esse o caso de Túlio (Hugo Ramírez), cuja esposa está internada com câncer. Para lá e para cá pelas ruas fervilhantes, o sujeito leva à tiracolo o pequeno Cristian (Bastian Escobar), seu filho de dez anos aficionado pelo jogo de fliperama Cosmic Defenders Pro, que, em um primeiro momento, ele esconde de Olga para não ter de pagar mais pela estada.

 


Ao cabo, trata-se de um fiapo de história em que vidas diametralmente opostas colidem, encontrando, aqui e ali, pontos de contato em meio ao mal-estar generalizado da vida em sociedade, com seu individualismo atroz e certo pendor à introversão (pra não dizer misantropia). Olga chega a avisar Túlio de que, de preferência, ele sequer fale com ele. Use o banheiro interno o mais rápido possível e não compartilhe com ela outros cômodos da casa, a exceção do quarto que está sendo alugado. Pouco lhe interessa a vida daquele pai com seu filho empobrecidos, quase numa versão latina de Ladrões de Bicicletas (1948) - sendo uma experiência, assim como no clássico de Vittorio de Sica, bastante naturalista para países com tantos contrastes sociais como o México (vale também pro nosso Brasil). Sentimento ainda mais evidenciado por instantes em que Túlio sofre para comprar medicamentos ou garantir o suprimento mínimo alimentar para ele e o filho.

Onipresente, a mosca reaparece aqui e ali, como uma memória daquilo que chega, invade, faz barulho, incomoda e, enfim, nos obriga a sair do sofá e deixar a letargia de lado, nem que seja pra dar uma chinelada. Só que Túlio e Cristian não são insetos e quando o pai do menino simplesmente desaparece em circunstâncias um tanto misteriosas, cabe à taciturna protagonista uma aproximação meio a contragosto do jovem - o que resultará em uma troca inesperada de afeto, que terá como ponto de vínculo as perdas familiares, o luto e a necessidade de seguir em frente diante da tragédia (e não deixa de ser impactante o pequeno instante em que Túlio segura o rosto de Olga de forma carinhosa, enquanto ela padece de uma febre que lhe paralisa). Sim, o tipo de dinâmica que assistimos aqui não tem basicamente nenhuma novidade que não tem senha sido vista ou explorada de forma bastante efetiva em produções como Central do Brasil (1998) ou A Língua das Mariposas (1999). Mas há um certo charme enigmático reforçado pela fotografia em preto e branco, que nos deixa meio vidrados.

Nota: 7,5 

 

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