segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Cinema - Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet)

De: Chloé Zhao. Com Jessie Buckley, Paul Mescal, Jacobi Jupe e Emily Watson. Drama / Romance, Reino Unido, 2025, 125 minutos. 

Aquele tipo de filme feito sob medida para a temporada de premiações, tanto em termos técnicos, quanto nos exageros melodramáticos da narrativa. Assim é Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet), filme mais recente de Chloé Zhao - de Nomadland (2020) - e que está indicado em várias categorias no Oscar. E, vamos lá, nem tanto ao céu nem tanto ao inferno na hora de analisar a obra, que é baseada em um romance de Maggie O'Farrell, que dramatiza parte da trágica vida do escritor William Shakespeare (Paul Mescal) e da esposa Agnes Hathaway (Jessie Buckley). Especialmente a parte em que precisam lidar com a morte do pequeno Hamnet (Jacobi Jipe). E, como manda a tradição do melodrama de época, não são poucos os momentos, nesse conjunto de acontecimentos, que tentam fazer com que o espectador verta lágrimas a qualquer custo. Quase na marra. E, confesso que lá pela sexta tentativa em que Agnes aparecia urrando de dor por algum motivo qualquer, começou a dar uma cansada.

E, a bem da verdade, essa tem sido uma das críticas de parte da imprensa especializada - a de uma certa forçação de barra no estilo "ok, aqui vocês precisam chorar de qualquer forma", como no momento em que o falecimento de Hamnet é confirmado. Só que, ainda assim, essa é uma experiência bonita, até pelo pano de fundo artístico, com uma série de sequências teatrais de ensaio (especialmente quando Shakespeare migra para Londres para tentar a vida como autor), ainda que a produção seja muito mais centrada em Agnes. E na sua persistência como mãe solo que fica na província, tornando possível o brilho do marido candidato a escritor. É ela, afinal, que meio que abre mão daquilo que alimenta a sua alma - e que tem a ver quase com uma existência quase mística, junto aos seres da floresta, o que faz com que ela faça amizade com um falcão e que tenha profundo conhecimento das ervas medicinais e de seus poderes (algo que vem de sua família).

 


Aliás, esse é justamente o componente mais interessante do roteiro - que é aquele que torna Agnes uma espécie de renegada que vive à margem, quase como uma bruxa excêntrica conectada a esse mundo divino e onírico. Por outro lado, Shakespeare é retratado como um sujeito de grande sensibilidade, que conhece a protagonista justamente quando chega ao vilarejo para dar aulas de latim para as crianças do local (para desespero de seu pai, um fabricante de luvas de lã que acredita que o futuro financeiro deve estar ligado aos negócios) - e não é por acaso que o começo do filme de Zhao chama tanto a atenção, que é quando essas duas almas marginalizadas se encontram e se amam. Ainda que esse contexto envolva instantes meio constrangedores, como aquele em que o escritor narra à sua pretendente um trecho de Orfeu e Eurídice, que pode até parecer conveniente à trama, ainda que não tenha nada a ver com ela.  

E aqui precisamos falar sobre as interpretações e, por vezes eu tenho a impressão que a Academia tem uma predileção por pegar aqueles papeis meio que mais ou menos da carreira desta ou daquela atriz, como forma de premiar o conjunto da obra. E quem acompanha a carreira da Jessie Buckley sabe que, para além das caras e bocas de sofrida geradas em Hamnet, ela costuma ser uma presença magnética em seus projetos sem que haja qualquer exagero mais caricato e até em filmes pequenos como Entre Mulheres (2022) ela parece mais crível - e nem vou citar o excelente Estou Pensando em Acabar com Tudo (2020), que aí é covardia. E a minha opinião polêmica talvez seja a de que a Emma Stone dá de relho em entrega no injustamente subestimado Bugonia (2025). Elegante, com bom desenho de produção, fotografia e figurinos, e discutindo temas ligados ao luto, morte e memória, o projeto ainda peca pela trilha sonora exagerada, que parece subir na hora errada, nos lembrando novamente do momento em que devemos lacrimejar. Só que, isso, infelizmente, soa um tanto artificial. E faz com que nos desconectemos, de alguma forma.

Nota: 6,0 

 

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