De: Gregg Araki. Com Olivia Wilde, Cooper Hoffman, Mason Gooding, Chase Sui Wonders e Charli XCX. Comédia / Drama, EUA, 2026, 90 minutos.
Se estudos mostram que os jovens estão mais conservadores, transando menos e até tendo outros interesses que não o sexo - ainda que a adesão à plataformas como Onlyfans e acessos ao XVideos talvez mostrem o contrário -, em alguma medida, um filme mais leve como I Want Your Sex, talvez possa ser uma alternativa divertida na hora de examinar esses tempos meio complexos em que vivemos. Sim, a obra do diretor Gregg Araki pode até ter o sexo já no seu título, ainda que a ousadia não avance para muito além de algumas cenas da Olivia Wilde com os seios de fora, usando roupas de couro coladíssimas ou transparentes e propondo alguns fetiches bastante convencionais - como se exibir de forma meio que onipresente de salto alto, com decotes abundantes e com uma atitude depravada ao estilo Millenial ou até mesmo Geração X, com bastante tesão. O que, no nosso caso, como brasileiros que cresceram nos anos 90, significa ter visto desde cedo na TV a Tiazinha do H, a prova da banheira ou o concurso da gata molhada (os dois últimos no saudoso Programa do Gugu).
Em linhas gerais a trama é bastante simples e coloca esse choque geracional meio que cara a cara quando Elliot (Cooper Hoffman, repetindo a preferência por mulheres mais velhas já vista em Licorice Pizza, mas com personalidade oposta em termos de confiança), um estudante de artes recém-formado, resolve tentar uma vaga de trabalho no escritório da performática artista plástica Erika Tracy (Wilde). O que ele consegue sem muito esforço, a despeito da fila quilométrica de interessados. Ao cabo, Erika é aquele tipo de artista contemporânea e provocativa que, em tempos em que uma banana colada com fita tape na parede rende milhões em um leilão, resolve criar uma peça repleta de simbolismos em que seus empregados mascam chicletes que, posteriormente, serão aplicados em uma tela que formará, em relevo, a imagem de lábios vaginais. No entorno da equipe, um sem fim de objetos - de vibradores a figurinos, passando por quadros excentricamente sensuais, que mais parecem saídos da mansão de algum ricaço do filme Laranja Mecânica (1971).
Importante dizer que fica claro, desde o primeiro minuto do filme, que a relação entre Erika e Elliot não será nada convencional - e o fato de a obra abrir com ela boiando de bruços em sua própria piscina, como um Joe Gillis de Crepúsculo dos Deuses (1950) dos nossos tempos, é a prova disso. E, claro, Elliot aparecer desesperado, tentando salvar a própria chefe da morte, vestindo apenas calcinha e sutiã rosas, não parece ajudar muito. Algum tipo de fetiche distinto? É o que descobriremos quando a trama retorna nove e meia semanas no tempo (sim, mais uma alusão engraçadinha), para contar não apenas como ambos se conheceram, mas como Erika, uma mulher já próxima dos 40 anos, se torna uma espécie de tutora (especialmente em um nível sexual) daquele rapaz notadamente desajeitado que, mesmo com apenas 23 anos, faz sexo bastante convencional em casa, com sua namorada Minerva (a cantora Charli XCX, que quase passa despercebida de tão discreta), que parece mais interessada em suas estudos científicos do que no namorado e seus desejos libidinosos.
Com idas e vindas no tempo, a trama mostra, por um lado, Elliot sendo interrogado por uma dupla de policiais (interpretados por Margaret Cho e Jonnhy Knoxville, sim, ele mesmo) e, por outro, os eventos do passado, que envolvem os vínculos do protagonista com pessoas do entorno que terão certa importância na narrativa, como o colega gay Zap (Mason Gooding) e a melhor amiga Apple (Chase Sui Wonders). Além, claro, da própria Erika, a artista cheia de afetação que parece debochar da arte contemporânea (que considera uma farsa, uma "masturbação arbitrária de sujeitos pretensioso"), ao mesmo tempo em que bebe dela. Ou busca validação dela - ao menos até o próximo cancelamento, mais um dos problemas desses tempos complexos e repletos de pessoas que se acham moralmente superioras, só porque frequentam o culto (mesmo que assistam pornô trans no sigilo). No meio do caminho, a dupla se aproxima e uma janela nunca antes imaginada por Elliot se abre, com debates interessantes a respeito da repressão sexual da atualidade ("os jovens de hoje preferem ver pornô ou jogar online"), leituras de Harold Robbins e performances sexuais excêntricas, que levam ao limite o sadomasoquismo, a submissão e até a humilhação. Sensual e extravagante, levemente audaciosa e cômica, essa é uma comédia soft porn dramática nem tão óbvia que avança um pouco a linha, mas sem perturbar demais o cidadão de bem.
Nota: 7,0

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