De: Richard Linklater. Com Guillaume Marbeck, Zoey Deutch, Aubry Dullin e Bruno Dreyfürst. Comédia / Drama, França / EUA, 2025, 105 minutos.
Sem querer exagerar, mas já exagerando, a impressão que temos quando assistimos ao ótimo Nouvelle Vague, que está disponível no Telecine, é que ficou muito tênue a linha entre o nascimento de clássico absoluto e um dos piores (e mais caóticos) filmes já feitos. Sim, o tempo fez justiça e Jean-Luc Godard viria a se tornar um dos grandes diretores da história do cinema - diferentemente do que ocorreria, por exemplo, com o esforçado Tommy Wiseau que tornou o excêntrico clássico cult The Room (2003) uma das coisas mais tenebrosas já feitas para a telona. História, aliás, contada no excelente O Artista do Desastre (2018). Já aqui, na trama dirigida pelo versátil Richard Linklater, em certa altura o grupo que está por trás da turbulenta produção de Acossado (1959), conclui uma primeira exibição da obra, ainda em fase experimental. "O mundo não está pronto para um filme tão repugnante", exulta um deles. Parece ser um elogio. Ou talvez uma crítica.
Entre tantas frases atribuídas ao gênio do cinema francês que, como tantos outros - Truffaut, Rivette, Rohmer - iniciou sua carreira como jornalista no periódico Cahiers du Cinéma, uma das mais famosas afirma que "o cinema é a fraude mais bonita do mundo". E não deixa de ser interessante perceber como o realizador é capaz de tratar ao mesmo tempo com paixão e certo desprezo (ao menos pelo formalismo), na concepção de sua primeira obra. Sem respeitar meio que nada, adotando um estilo totalmente anárquico - para desespero de atores, produtores, roteiristas, figurinistas, maquiadores e tantos outros. Godard (Guillaume Marbeck) ainda era jovem quando enfiou na cabeça, com um comportamento um tanto ególatra - reforçado pelos onipresentes óculos escuros e pelas frases cheias de afetação e pomposidade -, que precisava dirigir um filme. Não bastava, ao cabo, escrever sobre eles. Truffaut (Adrien Rouyard) tinha apenas 28 anos quando gestou o clássico Os Incompreendidos (1959). Era preciso integrar esse movimento.
O embrião desse sentimento vem justamente de uma exibição da obra em uma edição do Festival de Cannes. E após Godard, sem nenhum pudor, criticar duramente o trabalho do produtor Georges de Beauregard (Bruno Dreyfürst) em La Passe du Diable (1958). Como um doidinho de bairro zanzando pra lá e pra cá, o futuro diretor de aproxima de Beauregard (ou Beau Beau, como ele o chama carinhosamente), apresentando a ele um plot baratíssimo sobre um sujeito que rouba um carro, mata um policial e tenta fugir acompanhado de sua namorada jornalista, que o dedura mais tarde. Nesse contexto ele recruta o ator (e boxeador) Jean Paul Belmondo (Aubry Dullin) e a grande estrela norte-americana Jean Seberg (Zoey Deutch), que acabava de ser capa da Cahiers, justamente pelo seu papel em Anatomia de Um Crime (1959). Sendo divertida, aliás, a devoção da atriz ao trabalho de Otto Preminger, um diretor famoso pelo rigor técnico e que formará um contraponto à completa improvisação e falta de qualquer lógica de Godard.
Còmica, a produção de Linklater reconta os 20 dias de filmagem de Acossado, com os atores sendo surpreendidos a todo o momento não apenas com mudanças de cronogramas, mas com roteiro e diálogos criados em cima da hora, excesso de citações empoladas sem muito sentido para a narrativa, uso de locações reais nada combinadas e figurantes que mal sabiam que estavam integrando o elenco de um filme. Ah e, óbvio, os inevitáveis jump cuts (os cortes secos, bruscos). Só que o que poderia ser a pior coisa já feita no planeta - e, verdade seja dita, muitas foram às críticas quando do lançamento do projeto -, se tornaria uma obra-prima influentíssima, de um cinema muito mais calcado na realidade do que em uma... fraude. Ou algo que tenha cara de fraude. Para o espectador é sempre um choque assistir a Acossado - e não deixa de ser magnético perceber como o realizador foi engenhoso ao adaptar câmeras a carrinhos improvisados, muitas vezes apostando na crueza de um único take. Entre a insegurança e certa arrogância, Godard desconstruiu o sentido da arte apostando no naturalismo, na sugestão (do visto pelo não visto), em uma obra experimental e quase amadora, mas cheia de esforço, paixão e fúria. Nouvelle Vague, a despeito de ter sido esnobado na temporada de premiações, captura bem esse clima da época: essa beleza quase ingênua da intenção acima de tudo. Pra quem ama essa arte é impossível não se comover.
Nota: 8,5

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