Não que isso chegasse a ser um grande problema, mas vamos combinar que parecia faltar um tanto de calor à Playing Robots Into Heaven, registro lançado por James Blake em 2023 e que apostava em uma eletrônica minimalista e sofisticada, mas um tanto congelante. Enfim, o que resultava em canções de texturas mais rígidas, que pareciam mais distantes do ponto de vista emocional. Como em um inferninho solitário, a exemplo de I Want You to Know, que talvez não fizesse feio em algum disco do Jamie XX. Corta pra 2026 e temos um artista que, com o excelente Trying Times, jamais se afasta de suas origens que mesclam dubstep, R&B, gospel e soul experimental - com sua voz funcionando como uma extensão das melodias -, mas que parece disposto a uma espécie de reencontro com os arranjos mais aconchegantes de outrora. Pode ser só uma impressão, mas há uma energia meio ensolarada mesmo em ambientações fantasmagóricas. Ou mesmo nas letras cheias de vulnerabilidade.
Um bom exemplo nesse sentido pode ser percebido na engenhosa I Had My Dream She Took My Hand que, com suas emanações oníricas e versos alegóricos (Eu tive um sonho em que ela pegou minha mão / Ela começou a se dissolver junto com sua alma) conduz o ouvinte em uma jornada estranha e nostálgica em igual medida. O expediente se repete na faixa-título, uma canção vulnerável mas esperançosa, que se vale de sintetizadores suaves e batidas econômicas, que parecem se espalhar a cada nova curva. Como um todo há uma beleza cósmica e etérea, mas que ao mesmo tempo abraça, acolhe. "Eu sei que todo mundo diz isso, mas, objetivamente, esse é meu melhor álbum", resumiu o artista em entrevistas, sem falsa modéstia, talvez por ter conseguido, nesse caso, trabalhar de forma mais independente. E quando a gente ouve canções tão envolventes, como, Rest of Your Life, Just a Little Higher e Days Go By, além da sinistra Doesn't Just Happen, feita em parceria com o rapper Dave, é difícil discordar.
Nota: 8,5

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