segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Novidades em Streaming - The Mastemind

De: Kelly Reichardt. Com Josh O'Connor, Alana Haim, Bill Campo, Hope Davis e Gaby Hoffmann. Policial / Drama, EUA, 2025, 111 minutos.

Um filme sobre roubo de obras de arte moroso, letárgico e sem nenhum espaço pra catarse. E que, ainda assim, parece ser revelador de certo período nos Estados Unidos - no caso, os anos 70 da Guerra do Vietnã e do governo de Ronald Reagan. Assim é o recente The Mastermind, obra dirigida por Kelly Reichardt - do ótimo First Cow (2020) -, que está disponível na Mubi. Na trama acompanhamos o carpinteiro desempregado e trambiqueiro nas horas vagas J. B. Mooney (Josh O'Connor), que engendra um plano nem tão elaborado assim para roubar quatro quadros do pintor Arthur Dove, que estão dispostos em um museu do subúrbio da região de Massachusetts. Sem muita pressa para a execução, Mooney é paciente na hora de examinar como opera o local, com seus guardas que poucos inspiram segurança, caixas de vidro facilmente violáveis e rotas de fuga bastante plausíveis.

Aliás, quando o filme começa a gente até demora um pouco a perceber que ele já está fazendo algum tipo de estudo. Observando por cima de mesas e por entre corredores - enquanto um de seus filhos propõe charadas aleatórias que só servem de distração. Em certo momento ele recua uma pequena gaveta que exibe uma peça de arte que replica um cenário de guerra, de onde furta um "bonequinho" - tipo um soldado. Ninguém percebe a ação que é completa, ao estilo do protagonista do clássico Pickpocket: O Batedor de Carteiras (1959) de Robert Bresson: a peça vai parar dentro de um estojo de óculos e dali para a bolsa da esposa Terri (uma Alana Haim pouco aproveitada aqui), que sequer percebe a ação. Mooney já está trabalhando e o próximo passo envolve contratar três capangas que possam executar o plano. A grana pra pagar o trio será fornecida pela mãe Sarah (Hope Davis), sob uma desculpa qualquer que envolve um futuro projeto de decoração. 

 


Não é preciso ser muito ligado para perceber que esse certo desencanto coletivo - ou mesmo a desesperança por um futuro melhor -, se espalha pelas frestas. Não é apenas o exigente pai de Mooney, Carl (Sterling Thompson) que o cobra pra que ele tome jeito na vida. As perspectivas parecem convincentemente desanimadoras em um País em que mães protestam nas ruas contra a Guerra da Vietnã e em que cartazes do Tio Sam espalhados pela cidade convidam para o alistamento e para um certo espírito de luta pela Pátria. Meio alienado, o protagonista faz seu corre - quer dizer, corre é modo de dizer -, numa tentativa meio desajeitada de furto, enquanto o sistema de segurança falha miseravelmente. Após ser enganado por um dos capangas, Mooney precisa atuar diretamente no roubo. Na fuga. E em uma tentativa desesperada de fazer com que os quadros meio que sumam de vista - em uma época em que câmeras de segurança a cada esquina ainda não eram uma realidade.

Ao cabo, um filme com esse tema poderia ter mais ação, mas aqui a ideia é proporcionar uma experiência contemplativa, excêntrica e até engraçada - como no instante em que Mooney leva os quadros para uma fazenda, derruba uma escada de madeira e quase se machuca. Parece bobo, quase banal em alguma medida, mas é uma evidência generalizada do despreparo em uma antecipação de suspense que meio que nunca se consolida - por mais que a trilha percussiva e jazzística invasiva insista em direcionar para o outro lado. Tecnicamente bem executado, o projeto conta com excelente recriação de época - dos figurinos ao desenho de produção -, com a fotografia dessaturada, entre o azulado e o amarelado, reforçando o caráter arenoso e o retrô. O sonho americano falhou novamente. Por mais que as figuras marginalizadas insistam em encontrar seu rumo em um ecossistema que desmorona.

Nota: 8,0 

 

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