Sim, pode até parecer um papo de esquerda acomodada (ou cirandeira), mas se a arte pode ser um caminho no sentido de suprimir a dor dos tempos, porque não fazermos isso com um disco mais raivoso como o sensacional Who Loves the Sun, terceiro do Chat Pile? Naturais de Oklahoma, um dos tantos redutos conservadores e religiosos dos Estados Unidos, o grupo de noise rock e sludge metal capitaneado por Raygun Busch é declaradamente de esquerda antifascista, utilizando tanto sua sonoridade furiosa, como os vocais gritados, como forma de denúncia às estruturas de poder, às guerras, ao autoritarismo, à desumanização e ao avanço da extrema direita como um todo. E se nos ótimos anteriores God's Country (2022) e Cool World (2024) a mensagem fosse mais sutil, por óbvio que em um País governado por Trump a coisa precisa ser mais explícita, o que talvez torne esse o melhor álbum do grupo.
Todo esse expediente por ser percebido, por exemplo, na ótima PEN I S MALL, que começa no título da canção - que alude à alegoria da busca por certa compensação que envolve certos poderosos que se acham muito "grandes" de arma em punho -, passando pela melodia explosiva, até chegar à letra sobre alienação e a própria incapacidade de percebermos nosso próprio sofrimento, em um sistema de subordinação ao capitalismo tardio (É hora de trabalhar sobre o sal escaldante / É hora de estourar suas canelas / Greg é um cara, ele nunca bebe água / Greg toma café preto e Pepsi). Outro tema recorrente é a vigilância, especialmente em tempos de doomscrolling, de internet profunda e de channers, que borram os limites do uso da tecnologia. Algo percebido em canções excelentes como Deep Blue (sobre imersão em telas e consumo permanente de "informação"), Influence (a respeito de manipulação das redes por grandes corporações), Same Rules (sobre bolhas e isolamento social) e Intruder (a respeito de paranoia e ansiedade generalizada). Em resumo, é aquele disco pra colocar os fones, acompanhar as letras e começar a deglutir na base do ódio o que vem pela frente no Brasil.
Nota: 9,0

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