Quando escuto um disco como o new avatar, terceiro registro de inéditas da Kelela, fico imaginado aquele tipo de noite que talvez nunca existiu direito - ao menos fora da minha mente de morador do pequeno povoado do sul global. Classudo, espectral, aconchegante e sofisticado esse é o tipo de projeto que nos joga para as luzes urbanas e cintilantes da cidade enquanto o carro roda; para a pista performática e eventualmente introspectiva das três da manhã e para a solidão do quarto em uma madrugada que já se conecta com o início da manhã. Sim, é meio tentador resumir o trabalho como uma mescla de R&B, soul e eletrônica, mas não deixa de ser interessante notar como Kelela parece disposta a explorar outros terrenos sonoros - o que pode ser percebido, aqui e ali, pela guitarra que emula uma espécie de shoegaze noventista e que, em alguma medida, funciona como justíssima homenagem à precursores do instrumento número um dos "rockistas" (que, verdade seja dita, teve seu embrião na música negra, antes da apropriação por um bando de brancos bem nascidos e que talvez a máxima subversão fosse fumar maconha escondido dos pais).
No comunicado que enviou à imprensa e que antecipava o anúncio do álbum, a artista fez questão de lembrar que não deseja que a música seja uma mera distração do que realmente está acontecendo no mundo. "Eu quero que ela faça sentido neste momento louco, enquanto ajuda as pessoas a entrar em contato com a beleza e a alegria que também estão experimentando", afirmou. Não por acaso, a ideia de um avatar como alegoria para a construção de novas formas de existência em meio ao caos político, social, cultural e religioso - com avanço da extrema direita e políticas de opressão à minorias (como no caso das pessoas negras e queer) -, surge como a metáfora óbvia de um trabalho em que a transformação e adaptação parecem estar no centro. O resultado é uma coleção de canções impactantes em sua sonoridade etérea e límpida, com menos refrãos óbvios e mais versos potentes, como no caso da abertura com idea 1 (inspirada na obra da escritora Octavia Butler), linknb (sobre pertencimento cultural) e don't piss me off (a respeito de raiva convertida em resistência). Enfim, um dos grandes discos do ano.
Nota: 9,0

Nenhum comentário:
Postar um comentário