terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tesouros Cinéfilos - A Praga (The Plague)

De: Charlie Polinger. Com Everett Blunck, Kayo Martin, Kenny Rasmussen e Joel Edgerton. Drama / Suspense, EUA / Austrália, 2025, 98 minutos.

Em uma das primeiras cenas de A Praga (The Plague), o jovem Ben (Everett Blunck) está tentando se enturmar com os colegas adolescentes do acampamento de polo aquático em que acaba de chegar. Ele ainda é o novato tímido de olhar curioso e está meio que tateando aos poucos, buscando algum ponto de segurança em um contexto que talvez seja um dos piores do planeta: o de ser o desconhecido em um bando de crianças na faixa dos 12 e 13 anos que, a despeito da falta de maturidade, comportam-se como sujeitos autossuficientes e, eventualmente, arrogantes. Ao chegar com seu prato de comida ele já ouve alguma gracinha sobre ter escolhido o sabor de suco errado (uva ou laranja, há algum que é melhor). Mas tudo piora quando o coletivo se dá conta de que Ben possui um tipo de transtorno de som da fala, que faz com que ele omita certos fonemas (no caso ali, da dificuldade em verbalizar a palavra stop, que vira algo tipo ssóp).

Claro que isso já será motivo pra muita gaitada - com a frente desse bullying ainda preliminar sendo puxada pelo pequeno Jake (o ótimo Kayo Martin) que, a despeito de seu tamanho diminuto e da pouca idade, possui uma alta capacidade de uso de deboche e de ironia. E a coisa só não é pior para os lados de Ben porque existe um outro aluno - seu nome é Eli (o também excelente Kenny Rasmussen), que é o alvo principal do grupinho ali. Chamado pelos demais de praga - por conta de um severo problema dermatológico que descama a sua pele -, Eli vive isolado pelos colegas, mas sem necessariamente se impactar com isso (o que talvez sugira que ele tenha algum outro tipo de transtorno, como, talvez, de espectro autista). Ele segue sua vida meio que normalmente, ignorando os demais - e não deixa de ser divertido perceber como o roteiro brinca com essa ambiguidade envolvendo a complexidade de sua personalidade por meio da inclusão de detalhes simples, como o uso do clássico musical noventista Run Away de Real McCoy, que escapa de seu fone de ouvido.

 


Aliás, importante dizer que a trilha sonora, nesse filme de estreia do diretor Charlie Polinger e que ainda não chegou às plataformas de streaming, é um espetáculo à parte, com suas notas cortantes, experimentais, frias e desconfortáveis. É ela que, em muitos momentos da narrativa, funciona como uma espécie de fio condutor das tensões, que parecem sempre prontas a emergir (mesmo que essas ocorrências nunca pareçam maiores do que uma risadaria abobada por um comentário torto ou até por uma ereção inesperada de um colega). Em certa altura, por exemplo, após resolver auxiliar Eli a passar uma pomada em suas costas, auxiliando-o na alergia, Ben é isolado pelos demais da forma mais cruel que pode haver quando o assunto é a prática esportiva: nas disputas de polo aquático, ninguém passa a bola pra ele. A mão esticada permanece vazia, no vácuo, reforçando a ideia de solidão em meio aos demais.

Porque o bullying, verdade seja dita, em muitos casos não é agressão constante ou apupo o tempo todo. É sutileza na arte de abalar a moral do outro - o que pode ser perturbador e trágico para quem está amadurecendo, formando sua personalidade e também a ideia de masculinidade. Aliás, uma obra como essa pode não ser uma bandeira tão ostensiva ao apontar o dedo para o problema da cultura redpill que coopta jovens inceis pelo mundo, mas funciona como uma espécie de embrião a deixar os adultos - aqui representados pelo treinador Wags (Joel Edgerton) - sempre atentos. Hábil, a produção não converte aqueles jovens em sujeitinhos maniqueístas que são bons ou maus o tempo todo, sem nenhuma variação no traço de comportamento. Jake pode até ser o mais pestinha, mas isso não faz com que ele ignore completamente o novato ou ensaie algum tipo de amizade meio desajeitada com ele. Já Ben, mesmo sendo um jovem vulnerável e candidato óbvio da humilhação e das intimidações vindas dos demais, nunca é apresentado como coitadinho. O que é evidenciado por sua complexa relação com Eli. Ao cabo, aqui temos uma obra que respeita a inteligência do espectador, sem entregar todas as respostas de mão beijada. "Você acha que pode ser você mesmo e não dar a mínima para que os outros pensam?", argumenta um revoltado Ben quase ao final do filme? É a reflexão que fica.

 

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