Vamos combinar que o exercício de escutar qualquer disco da Aldous Harding, é mais ou menos como entrar em um carro para pegar a estrada em direção a um local nunca antes explorado. Meio que como uma viagem ao desconhecido - pra ficar na alegoria mais óbvia. Sim, seus álbuns não costumam ser lá muito fáceis, palatáveis ou, vá lá, comerciais. Suas curvas no limite entre o experimentalismo folk, o indie de cafofo e o art rock excêntrico costumam ser tortas ou pouco previsíveis. Se estamos indo pra cá, não demora para que o rumo mude pra lá. Se em um instante a melodia parece direcionada para algo caloroso ou de fácil identificação, em outro a coisa soa estranha ou teatral - com o vocal subindo e descendo inesperadamente. O que em tempos em que nos acostumamos a sermos alimentados com papinhas culturais prontas, ultraprocessadas ou de fácil digestão, pode soar como um exercício desafiador. Mas também compensador.
Afinal, parece que a gente tá sempre buscando a melhor banda dos últimos tempos da última semana. Ou, minimamente, aquele artista que nos retire da zona de conforto da lógica algorítmica do refrãozinho de IA ou da dancinha de Tik Tok. E, como se fosse uma Fiona Apple em Fetch the Bolt Cutters, Harding entrega, com Train on the Island, uma experiência enigmática, evocativa, que provoca, que mexe com as nossas sensações. São músicas deslocadas que jamais soam feias, ainda que a sua beleza necessite ser escavada. Um bom exemplo de tudo isso pode ser percebido no single One Stop que, com seu piano e vocal expressivos e mudanças de direção que fogem da lógica, parece algo no limite entre um Radiohead fase Amnesiac (2001) e uma Kate Bush de Hounds of Love (1985). Há uma série de outros ótimos momentos como, Venus in the Zinnia, What Am I Gonna do? e a faixa-título, em que temas, como, cobrança por padrões corporais, feminilidade performática e sensualidade caricatural emergem em versos cheios de simbolismos e alegorias. É tipo uma refeição que a cada nova bocada gera mais satisfação.
Nota: 9,0

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