De: Benny Safdie. Com Dwayne Johnson, Emily Blunt e Mark Coleman. Drama / Biografia, EUA, 2025, 123 minutos.
"Você perdeu uma luta, grande coisa, supera!". É em um momento de puro desespero diante do marido - uma montanha de músculos de 120 quilos - que desaba, que Dawn Staples (Emily Blunt) tenta argumentar apelando para uma coisa quase básica. Daquelas que a gente fala para as crianças pequenas: a de que perder faz parte da vida e que é preciso levantar a cabeça e partir para a próxima. Especialmente se você é um atleta de alto nível, como no caso do lutador de MMA Mark Kerr (Dwayne Johnson), um dos pioneiros em estilos de lutas mistas. Só que naquela altura de Coração de Lutador (The Smashing Machine), que está disponível na Amazon Prime, tanto Dawn quanto o espectador já perceberam que Mark está perdendo uma outra batalha pessoal: a do vício em medicamentos analgésicos potentes (os opióides) que arruinarão sua carreira. A sequência seguinte é a de um Mark caído no chão da cozinha, após uma overdose.
Em linhas gerais eu tendo a me perguntar, especialmente em filmes de certos subgêneros - como esse, que se enquadra no drama esportivo biográfico -, se há material suficiente para sustentar um longa metragem de duas horas. E no caso da obra de Benny Safdie há um pequeno milagre na tentativa de fazer um fiapinho de história em um material com mais envergadura. Isso significa produção de qualidade? Não necessariamente. Talvez pra quem goste o esporte seja um prato cheio ver um bando de sujeitos gigantescos se esmurrando - sempre na camaradagem, claro -, conhecendo também um pouco das origens de certos torneios que, atualmente, inclusive no Brasil, são muito populares. Mas o resumo do resumo da ópera desse filme vencedor do Leão de Prata de Berlim, é que temos a história de um atleta promissor, talvez um dos melhores de sua geração, que, entre os anos de 1997 e 2000 atinge rapidamente o auge e o declínio.
Ok, nos momentos em que Mark não está esmurrando portas e paredes em discussões com a esposa - algo que meio que assusta em um cenário atual de tanta violência contra as mulheres e casos de feminicídio -, ele é apresentado como um sujeito afetuoso, um gigante gentil mais ou menos carismático e talvez oprimido pela fama repentina (ainda que em suas entrevistas se apresente como alguém autoconfiante, truculento e arrogante). Na primeira sequência com Dawn já é possível perceber a sua toxicidade, ao vermos ele se mostrar contrariado a respeito da receita de uma vitamina de banana (ocasião em que ela parece mais a empregada do que a companheira). Talvez fossem outros tempos e o caso é que Dawn não arreda pé de seu lado, mesmo quando as coisas começam a desandar. Mais do que isso, o protagonista talvez só permaneça vivo por causa dela - é ela que o encontra na cozinha, ligando desesperada para o grande amigo e parceiro de lutas Mark Coleman (Ryan Bader).
Após as derrotas impostas pela vida, Mark vai para um centro de reabilitação - o que é uma perda dupla pra quem é atleta. E precisa do corpo para trabalhar. Como na jornada do heroi típica, o homem retorna amoroso para os braços da esposa, que estranha algumas de suas atitudes dispersas ("sem remédio você vira um escroto", ela chega a esbravejar). Ao mesmo tempo em que ele treina com Bas Rutten (o veterano interpreta ele mesmo) para um retorno épico em uma competição no Japão - mas, aqui, como na volta de Rocky Balboa em 2006, a conquista maior está na trajetória e na superação. E não dá pra negar que Safdie - em sua primeira incursão longe do irmão Josh, com quem fez Joias Brutas (2019) - se empenha em entregar um projeto com início meio e fim, ainda que não deixe de ser gritante a completa falta de profundidade de todos que acompanhamos ali. Sinceramente, a gente meio que entra e sai da experiência sem conhecer ninguém direito. É tudo raso. Como um pires. Ou uma pancadaria de octógono. Quando vê tu já tá apanhando. Sem se livrar da apatia. Uma pena.
Nota: 4,5

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