quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Pitaquinho Musical - Ana Frango Elétrico (Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua)

"Eu sou o garoto de Stranger Things / (Menino, menino, de Stranger Things) / Eu não sou a garota que você pensa." Talvez um pouco mais direta e muito mais confiante do que nos trabalhos anteriores - especialmente na abordagem de temas ligados à identidade de gênero e a expressão da subjetividade queer. Mais ou menos assim pode ser resumido o efervescente Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua, terceiro registro da carioca Ana Frango Elétrico. Preservando a essência daquilo que foi apresentado especialmente em Little Electric Chicken Heart - o elogiado disco de 2019, que era marcado pela diversidade de estilos e pela ironia fina dos versos -, aqui, a cantora e compositora mantém o diálogo com a tradição da música brasileira, sem ignorar a importância do diálogo com o moderno, cruzando referências, indo do boogie, passando pelo pop sofisticado, pela MPB classuda e pela dance music de arranjos cintilantes.

Do início, com a explosiva Electric Fish, que parece saída das pistas setentistas à conclusão com a divertida Dr. Sabe Tudo, o trabalho, de pouco mais de meia hora de duração, representa ainda um ponto de maturidade, especialmente na hora de expor sentimentos de amor LGBTQIA+. De Stranger Things - cantadas em inglês, como um caminho para a busca de novos mercados -, passando por Dela e, especialmente, Camelo Azul (Fumando um Dunhill / Me dá um / Só mais um / Seu cheiro me lеmbra meu lado feminino / Mas hoje sou mеnino), o disco vai da economia à expansão em questão de segundos, permanecendo claro e coeso durante todo o tempo. Como disse o site The Needle Drop em sua elogiosa resenha, atualmente Ana é um daqueles nomes que consegue soar como ela mesma, independente do gênero que esteja explorando. O que pode ser percebido em canções distintas como a cinematográfica Nuvem Vermelha, passando pela indie Coisa Maluca, até chegar ao art pop de Dr. Sabe Tudo.

Nota: 9,0


quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Curta Um Curta - Estranha Forma de Vida (Strange Way of Life)

Vamos combinar que Estranha Forma de Vida (Strange Way of Life) não lembra nem de perto os melhores momentos da obra de Pedro Almodóvar. Aliás, eu concordo com aquele recorte de fãs que acreditam que o curta, agora disponível na Mubi, bem poderia ser um longa. Com mais camadas, explorando de forma mais aprofundada a história de dois pistoleiros do velho oeste, que se reencontram depois de 25 anos, por conta de um crime cometido. Só que, ainda assim, é preciso que se diga que vale muito a pena conferir Pedro Pascal e Ethan Hawke em cena, encarnando esses sujeitos supostamente durões e antagônicos, mas que mantém um relacionamento em segredo. Pascal é Silva, sujeito que atravessa o deserto para uma visita ao xerife Jake (Hawke), na tentativa de demovê-lo da ideia de prender o assassino da esposa de seu irmão. Só que o problema é que o principal suspeito do crime é Joe (George Steane), filho de Silva. Memórias, desejos íntimos e raivas que demoram a ser verbalizadas movimentam a narrativa, que tem cores mais discretas e uma economia como um todo, quando comparada a própria obra de Almodóvar. Ainda assim, vale dar o play!


Tesouros Cinéfilos - Pecados Íntimos (Little Children)

De: Todd Field. Com Kate Winslet, Patrick Wilson, Jackie Earle Haley, Jennifer Connely e Noah Emmerich. Drama, EUA, 2006, 136 minutos.

Poucas vezes a mesquinharia, a hipocrisia e o vazio existencial da classe média suburbana norte-americana foi tão bem retratada no cinema moderno, como no ótimo Pecados Íntimos (Little Children) - que, por incrível que pareça, havia sido apenas o filme anterior de Todd Field, antes do elogiado Tár (2022). Aqui temos aquele típico recorte da monotonia do bairro pacato com as suas casas de portãozinho branco e jardins de plantas bem aparadas e praças limpas - aliás, justamente o local onde costumam se reunir algumas dondocas com suas crianças pequenas, estando entre elas Sarah (a sempre competente Kate Winslet). O assunto entre elas, com suas vidinhas ordinárias e pouco interessantes, não costuma variar, indo da preocupação com a existência de um suposto pedófilo na região - um homem que havia sido preso e foi solto após cumprir sua pena -, e o desejo secreto e platônico direcionado a um gostosão do bairro, um pai de família que surpreende todas elas por fazer mais ou menos o básico.

Para Sarah, aquele comportamento que não parece sair muito do rasinho, soa meio estranho. E quando ela é instigada pelas demais mulheres para tentar conseguir o telefone do sujeito - o bonitão se chama Brad (papel de Patrick Wilson) -, ela não apenas alcança o seu objetivo, como ainda descola um beijo nele. Para o horror das demais, afinal, o que seus filhos vão pensar ao ver dois adultos demonstrando amor, não? Esse será o ponto de partida para mostrar que, naquele ambiente, ninguém é o santo que se vende na vida pública já que, no íntimo, no privado, muitos deles parecem ter seus segredos, alguns deles que derivam para excentricidades que, em alguma medida, podem ser reflexo de questões psicológicas mal resolvidas ou resultado de outros distúrbios emocionais diversos. E o que o filme fará de forma muito hábil, é ir descortinando aos poucos esse comportamento dissimulado, de quem gosta muito de apontar o dedo para o "rabo" alheio, mas esquece de olhar para o próprio.

A própria Sarah, pra começar, e por mais que ela transpareça ser algo tipo a mocinha do filme, é casada - aliás, com um sujeito de nome Richard (Gregg Edelman) que, mais tarde, descobriremos ser um viciado em pornografia online, com direito a conteúdos baixados até mesmo no ambiente de trabalho. Já Brad é o homem básico de bermuda caqui, mocassim e camisa manga longa que vive as custas do trabalho de sua esposa Kathy (Jennifer Connely), uma renomada documentarista, enquanto mente a ela que está estudando na biblioteca para o exame da OAB para, na verdade, espionar jovens adolescentes que andam de skate (sabe-se lá com que desejo secreto). E mente mais ainda quando inicia o romance em segredo com Sarah. E para Brad essa já inexistente retidão desmoronará ainda mais quando ele se aproximar de um antigo amigo de nome Larry (Noah Emmerich) - um policial aposentado de tendências meio fascistas que integra um comitê local que tem como maior projeto de vida vilipendiar o tal pedófilo (seu nome é Ronnie).

Claro, o filme não passa pano para Ronnie, um homem próximo dos 50 anos, que ainda mora com a mãe e que claramente precisaria de um amplo tratamento psiquiátrico para a possibilidade de um retorno à vida em sociedade com redução de danos. Só que, claro, isso não deveria autorizar os moradores da região a formar uma espécie de milícia vingativa - que ocupa parte dos seus dias colando cartazes e falando em megafones sobre os riscos de haver um criminoso entre eles. Aliás, o próprio Larry, esse justiceiro quase caricato, saberemos mais adiante, também não é alguém de moral tão inquestionável, como comprovam alguns episódios do passado que dizem respeito a sua desastrada atuação como homem da lei. Bem conduzido, utilizando o bairro como uma espécie de observador silencioso da rotina, com sua fotografia pouco saturada e cores e figurinos de tons pasteis, esse é um filme que examina à perfeição os defeitos obscuros da vida da classe média, praticamente nos exigindo um exame de consciência. Especialmente antes de julgar o outro.


segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Novidades em Streaming - As Bestas (As Bestas)

De: Rodrigo Sorogoyen. Com Denis Ménochet, Luiz Zahera, Diego Anido e Marina Foïs, Drama / Suspense, Espanha, 2022, 138 minutos.

As Bestas (As Bestas) não é apenas um filme. É uma aula de cinema. Daquelas que deveriam ser exibidas em cursos superiores para estudantes que se pretendem cineastas. Uma experiência que nos deixa maravilhados com o poder dessa grande arte. Em alguma medida, e nas aparências, essa poderia ser apenas uma narrativa sobre a desavença entre duas famílias vizinhas com filosofias, ideais e projetos - históricos, de agricultura, institucionais, de vida em sociedade - distintos. E que, não demorará muito, colidirão de maneira inescapável. Em uma análise mais ampla, porém, não deixa de impactar a forma como o diretor Rodrigo Sorogoyen insere temas como, xenofobia, tradições, colonialismo e meio ambiente, tornando aquele microcosmo como uma espécie de reflexo do todo. Parece que a cada dia estamos mais dispostos a odiar, a sermos intolerantes. A sermos incapazes de escutar o outro lado, entender suas motivações. E para, a partir daí, a coisa descambar pra violência, é um passo. O barril de pólvora parece sempre pronto a explodir.

Em uma das cenas centrais da obra, o francês Antoine (Denis Ménochet), convida os seus vizinhos Xan (Luiz Zahera) e Lorenzo (Diego Anido) para um drinque no boteco local. E para uma conversa franca. Os três moram em uma pequena vila na Galícia, no noroeste da Espanha. Antoine, um intelectual de vida financeira aparentemente bem resolvida, está no local acompanhado da esposa Olga (Marina Foïs) há cerca de dois anos. Em sua propriedade planta verduras orgânicas, enquanto se empenha em reformar antigas residências que possam, mais a frente, atrair interessados. Já Xan e Lorenzo são os agricultores convencionais nativos - dois sujeitos rudes, na meia idade, que ainda moram com a mãe e que lutam diariamente por uma condição melhor de vida. Para os dois, os ideais de Antoine e Olga não passam de caprichos de burgueses afetados, que desconhecem a realidade, as dificuldades e os anseios do povo dali. Já o casal crê em algum tipo de utopia empreendedora - semelhante a dos endinheirados que adquirem propriedades rurais para transformá-las em produtos oferecidos no Airbnb.

A vida idílica, bucólica, pode ser um ideal para aqueles que se cansaram da rotina pasteurizada, urgente e tecnológica da cidade grande - e isso não está em discussão. Mas as mágoas de Xan e Lorenzo são maiores, tem outros recortes, já que acreditam que a presença do casal forasteiro no local reduz as oportunidades para eles. Como por exemplo, em uma situação em que os moradores foram convocados a votar ou não pela presença de uma empresa interessada em implantar um sistema de energia eólica na região - o que lhes colocaria em lados opostos. "Você está aqui há dois anos brincando de fazendinha, enquanto eu estou há 52 anos e Lorenzo a 45", argumenta Xan, antes de completar de forma dolorosa: "e estamos fartos de sermos miseráveis. E não sabíamos que éramos miseráveis até os cretinos da eólica chegarem e nos oferecerem um bom dinheiro". Para Xan e Lorenzo aquilo poderia representar o passo nunca dado. Para Antoine, a sustentabilidade é uma filosofia de vida que lhe faz votar contra projetos tão invasivos para o ecossistema local. É complexo. E tenso. Aliás, capaz de converter um simples jogo de dominó no bar, em uma das sequências mais inquietantes dos últimos anos.

Com longos planos sequência, a obra tem como uma de suas forças os diálogos - sempre íntimos, pesados, dilatados atmosféricos. Uma mera conversa sobre modelos de cultivos e uso da terra de maneira adequada na produção limpa, pode adquirir contornos mais carregados. Tudo parece estar sempre no limite da ebulição, mesmo que não pareça estar havendo muita coisa. A ambientação geral é cinzenta, a geografia sinuosa do local pode ser ao mesmo tempo ampla e espaçada, mas também apertada, quando o assunto é a linha divisória entre as propriedades, os limites estabelecidos. As provocações, a agonia e o desalento são reforçados pela trilha sonora vigorosa de notas rasgantes, que nunca soa invasiva, e pelas interpretações naturalistas, nunca caricaturais - auxiliando também o fato de o projeto não ser excessivamente maniqueísta ou panfletário, ainda que o roteiro, baseado em fatos reais, pareça conduzir o espectador para uma determinada direção. Repleta de contrastes e de camadas, essa é uma experiência evocativa, que cresce justamente diante de suas sutilezas. É imperdível. De ver e rever.

Nota: 10


quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Tesouros Cinéfilos - Nebraska

De: Alexander Payne. Com Bruce Dern, Will Forte, June Squibb e Bob Odenkirk. Drama / Aventura, EUA, 2013, 115 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Alexander Payne sabe de sua capacidade de dar luz à dramas familiares, que parecem examinar os Estados Unidos em seu componente mais provinciano - o que muito provavelmente tem uma boa dose de autobiografia, dadas as suas origens em Omaha, no coração do País. Foi assim com As Confissões de Schmidt (2002) e Os Descendentes (2016), com o expediente se repetindo no clássico moderno Nebraska, premiado projeto que completa dez anos de seu lançamento em 2013. Disponível para aluguel na plataforma da Amazon, o filme parte de um fiapo de história para uma análise de temas, como, solidão na terceira idade, dificuldade de comunicação entre gerações e incertezas diante da finitude. Na trama, o octogenário ex-alcoólatra Woody (Bruce Dern, em premiadíssima caracterização), acredita ter ganho um prêmio de US$ 1 milhão, que estaria disponível para retirada na cidade de Lincoln, Nebraska.

Só que o suposto prêmio não passa de um daqueles golpes em formato de carta registrada - que publicações como a Revista Seleções enviava para seus clientes, dando a entender que eles poderiam ficar milionários do dia para a noite, desde que assinassem o periódico. E, admito, quando era jovem, minha família assinou a Seleções e o troço era tão sacana, que até chaves - simbólicas, falsas, claro -, de automóveis ou de casas de valores estratosféricos, eles enviavam pelos correios. Era um esquema que visava atrair novos assinantes que, assim, participariam de sorteios. E por mais que seu filho David (Will Forte) tente demovê-lo dessa intenção estapafúrdia de viajar mais de mil quilômetros partindo do Estado de Montana, no Norte dos Estados Unidos, não há nada que o faça mudar de ideia. É preciso ir até Lincoln. A pé, de carro, de qualquer jeito que for. No começo do filme, Woody é parado até mesmo pela polícia, que quer entender o que ele faz bordejando a rodovia perigosamente.

Claro que tudo isso não passará de uma boa desculpa para um drama de aproximação entre pai e filho, que andavam aparentemente afastados - especialmente por traumas passados. Ranzinza, Woody é daqueles que está sempre as turras com os demais familiares, como no caso da esposa Kate (June Squib). Lá pelas tantas, pra tentar atender o desejo do pai, David pede uma folga no trabalho - como vendedor de eletrodomésticos - para uma jornada à bordo da caminhonete da família, em direção ao Nebraska. O que envolverá uma parada estratégica na cidade Natal de Hawthorne, na Dakota do Sul, após um acidente no caminho. Será lá que Woody reencontrará seus antigos amigos - parceiros de bodega, na realidade -, e revelará o que motiva a viagem. Despertando nos moradores do local não apenas a curiosidade, mas também o desejo de levar alguma vantagem sobre o prêmio (que, lembremos, sequer existe).

Feito com uma refinada fotografia em preto e branco - que parece ampliar o sentimento de melancolia interiorana -, e com uma trilha sonora que alude à solidão desses espaços, a obra tem alguns de seus grandes instantes envolvendo uma visita a Ray (Rance Howard), o irmão de Woody. Em uma sequência tão divertida quanto excêntrica, os filhos de Ray, Cole e Bart (Devin Ratray e Tim Driscoll) tentam, em vão, estabelecer algum diálogo com David, sobre carros e seus tipos de motor - num estereótipo difícil de ignorar. Em outra parte, toda a família está reunida em torno da televisão - que, ao cabo, se torna um dos únicos entretenimentos possíveis em eventuais fins de mundo. E, por mais que haja graça alternada com desalento, a produção não deixa de mirar em certo otimismo quase agridoce em seu terço final quando Woody, de uma forma meio torta, parece atingir o seu objetivo. Ou ao menos uma parte dele.


terça-feira, 17 de outubro de 2023

Livro do Mês - Caminhando com os Mortos (Micheliny Verunschk)

Editora: Companhia das Letras. Brasil, 2023, 146 páginas.

"Se tinha má fama, a gente não sabe, nem deu tempo de assentar. E agora isso. Essa desgraça! Lourença e Ismênio ficaram cegos com as palavras do pastor. Isso é o que é. Perderam o tino. E não foi só eles, não, muita gente acreditou. Um homem santo, é o que dizem, né doutor? Desculpe, eu sei que o senhor é da Congregação, não tenho a intenção de afrontar. Mas pra mim tanta santidade nunca agradou, não, porque, no começo, eram promessas e mais promessas, testemunhos de vida, pobres que ficaram ricos, desenganados que se curaram, sermões sobre o povo escolhido, o jugo do demônio que foi sendo vencido, mas logo, veja só o senhor, tudo virou pecado, as rodas de dança de São Gonçalo, e muito costume nosso, a cavalhada, as coisas que o padre mesmo, que já vive aqui há muito tempo, nunca ignorou nem tratou com desprezo. Eu não sei dizer se aqui na cidade o pastor tinha palavra mais branda, mas por lá, em Tapuio, em Pacapi, no Poço Guiné e nos sítios por onde andava, era só clamor contra tudo."

Uma história sobre intolerância religiosa - e de como o discurso institucional extremista pode estragar não apenas a vida de uma pessoa, mas de um povoado inteiro. Às vezes por muitas gerações. Mais ou menos assim é possível resumir a experiência com o atualíssimo Caminhando com os Mortos, mais recente obra de Micheliny Verunschk - que foi muito premiada recentemente, com O Som do Rugido da Onça, que conquistou o Jabuti de Melhor Romance Literário. Em um Brasil que tem um congresso capaz de tomar decisões mais com a Bíblia debaixo do braço do que com a Constituição Federal - acenando para o retrocesso em temas que já deveriam ter avançado -, a história de uma jovem queimada vida pela própria família, na intenção de expurgar os demônios, o pecado e a bruxaria não chega exatamente a surpreender. Aliás, em entrevista ao site Quatro Cinco Um, ela afirma ter se inspirado justamente em notícias do tipo.

"Brinco que esse livro é uma história de zumbis, pessoas seguindo alguns preceitos até virarem walking deads", afirmaria na mesma entrevista. E, em alguma medida, é exatamente assim que dona Lourença, mãe de Letinha, a jovem assassinada - alguém cheia de vida, independente, que sairia do povoado de Tapuio, para retornar mais tarde com comportamento diferente daqueles previamente ensinados, de recato, de respeito, de temor à Deus - e seu marido Ismênio passam a se comportar, após a chegada ao local de um pastor evangélico que trabalhará para suprimir a ancestralidade do local, sua cultura e suas tradições indígenas e negras, seus terreiros, suas plantas. Evangelizar é preciso - e ao aderir a tal Congregação dos Justos, os pais de Letinha se converterão em figuras alienadas, que passarão a vigiar o comportamento alheio e suas práticas, enxergando pecado talvez onde nem tenha. Encanrando a própria filha como alguém desavergonhada, excessivamente livre, de hábitos mundanos.

Ao cabo, vocês já viram essa cena: a jovem que sai para o mundo, para estudar, para trabalhar, adquire outros hábitos, retornando à sua comunidade como alguém completamente modificada. O que piorará com o combustível - quase literal - do fundamentalismo religioso, e sua sanha punitivista, de limpeza social e moral, mais ainda contra as mulheres. E, muitas vezes, perpetrada com o apoio de outras mulheres, especialmente quando a lavagem cerebral avança para outros campos, como o da legislação sobre o corpo alheio. "É muito risível: essas pessoas se arvorando em determinar o que os outros são, esses nomes de igrejas que estão no livro: igreja Automotiva ou do Perfume de Jesus são nomes reais de congregações", salienta a autora na entrevista, evidenciando a hipocrisia. Na trama de Michelini outras tragédias se cruzam, outras mulheres sofrem, como no caso da perita narradora, que testemunha a brutalidade se convertendo em uma inesperada algoz que contribui para a perpetuação do suplício. É um livro forte, poderoso, às vezes até difícil em sua prosa atmosférica, bucólica. Mas é imperdível.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Novidades em Streaming - Uma Bela Manhã (Un Beau Matin)

De: Mia Hansen-Løve. Com Léa Seydoux, Melvil Poupaud, Pascal Greggory e Camille Leban Martins. Drama / Romance, França, 2022, 112 minutos.

Vamos combinar que quando o assunto são as dores cotidianas, muitas vezes costumamos sofrer em silêncio, meio resignados, sabendo que na maioria dos casos dependerá de nós mesmos a correta tomada de decisão para sair desse ou daquele conflito. E não necessariamente estamos falando de grandes tragédias - ainda que doenças familiares, incertezas que envolvem a criação dos filhos ou um suposto grande amor difícil de ser correspondido, possam estar entre os eventuais problemas que precisamos lidar. E no caso Uma Bela Manhã (Un Beau Matin), mais recente projeto da diretora Mia Hansen-Løve (de A Ilha de Bergman, 2021), nos deparamos justamente com esses recortes bastante íntimos, que nos deixam em certo grau de instabilidade. Afinal de contas a nossa existência sempre será, em alguma medida, uma coleção de pequenos instantes, de distrações, ocorrências e fragmentos que formarão, aqui e ali, a nossa jornada.

Nesse sentido, obras como essa podem não ser tão acessíveis para os espectadores, já que temos a impressão de que é no "não acontecimento", que as coisas ocorrem. Ou que se tornam mais profundas do que sugerem as aparências. Na trama somos apresentados à viúva Sandra (Léa Seydoux) uma jovem mãe que, ao mesmo tempo em que se empenha para criar a sua filha Linn (Camille Leban Martins), precisa lidar com as tristes inconveniências que envolvem o seu pai Georg (Pascal Greggory, em excelente atuação) - um renomado e respeito professor universitário, que padece de uma severa doença degenerativa que lhe impede a visão (e, consequentemente, a autonomia). Enquanto tenta, ao lado das irmãs e da mãe, viabilizar um local adequado para que seu pai possa ter a melhor assistência - há uma série de dúvidas quanto as alternativas de casas de repouso e suas instalações -, Sandra reencontra, em suas andanças cotidianas, um velho amigo chamado Clément (Melvil Poupaud).

E não demora para que percebamos as afinidades de Sandra e Clément - quando estão juntos se divertem, o sexo parece cheio de química e de tesão, eles servem de amparo um ao outro em momentos de incerteza. Só que tem um pequeno detalhe: Clément é casado, tem um filho. E nem sempre conseguirá estar ao lado de Sandra para o suporte emocional, quando tudo ao redor estiver prestes a desabar. Algo que, não bastasse todo o turbilhão, ainda lhe prejudicará em outras frentes - ela trabalha como tradutora e, em uma sequência angustiante, é possível ver como ficará desnorteada após receber uma mensagem ao celular (o que dificultará a sua atuação durante uma importante live em um congresso). Ao cabo, este é aquele tipo de produção que, por mais sutil e discreta que seja - o que envolve a aposta em silêncios, olhares, gestos comedidos e divagações pequenas -, sempre parecerá pronta para se converter em uma tempestade.

Com excelentes interpretações do elenco - Léa, por exemplo, consegue transmitir toda a dor por meio de seus olhos angulosos (e cansados) ao passo que a sua mãe é a figura enérgica que parece meio de saco cheio de tudo aquilo (e a presença da ótima Nicole Garcia sempre adiciona um algo a mais) -, a obra ainda aproveita seus temas para amarrar, aqui e ali, assuntos que envolvem morte, finitude, recomeços e a eterna busca pela felicidade. Para quem assiste é meio difícil julgar Sandra apenas por julgar. Todos nós temos dúvidas, medos, anseios. Todos nós queremos nos agarrar naquilo que nos faz feliz para não soltar mais - e para tentar esquecer tudo o que demais nos incomoda, nos faz sofrer. É um filme de cotidianos, que pode nos levar das lágrimas ao sorriso em questão de segundos (bem como é a vida). Não há certo ou errado, lado bom ou ruim. Há apenas pessoas vulneráveis tentando a todo custo olhar para um futuro que possa ser melhor que o presente.

Nota: 8,0


Pitaquinho Musical - CMAT (Crazymad, For Me)

Na lógica do mercado musical, sempre fico um tanto impressionado quando me deparo com algum artista que, aparentemente, não tem a atenção ou mesmo o reconhecimento que merece. E esse é o meu sentimento quando escuto a CMAT. Como assim as pessoas não estão simplesmente falando dela? Como não a estão apontando como uma aposta certeira para as listas de melhores de 2023? Segunda colocada na nossa relação do ano passado, com o singular (e pouco divulgado) If My Wife New I'd Be Dead, Ciara Mary-Alice Thompson retorna com Crazymad, For Me - novo registro de inéditas em que novamente mistura o indie, o folk e o pop colorido, em letras divertidamente cínicas, povoadas por referências culturais diversas e que falam de relacionamentos tóxicos, de tramas mal resolvidas e de dilemas cotidianos de forma afiada, debochada, imprevisível.

Preservando a personalidade do trabalho anterior, a irlandesa converte cada uma de suas composições em verdadeiros hinos cheios de sarcasmo que, com seu apelo comercial irresistível, parecem prontos para serem cantados a plenos pulmões pelo público. Um bom exemplo desse expediente pode ser encontrado na festiva e nostálgica Where Are Your Kids Tonight?, dueto com John Grant em letra que parece olhar para o passado na hora de refletir sobre o futuro. Já quando reduz velocidade, como no caso da espetacular Vincent Kompany - sim, numa citação ao cabelo (!) do ex-jogador belga, a artista mantém a sua verve que pende pra leve excentricidade na hora de debochar de si própria (Eu tenho uma maneira perversa de odiar minha própria companhia / Ela não é tão ruim, mas me colocou novamente em apuros / Quando, confortavelmente, assista dezesseis horas seguidas das Gilmore Girls). Vocês precisam descobrir.

Nota: 9,0