O que se pode depreender das novas canções - e talvez do novo registro - é que, mais do que o R&B classudo adotado até o disco anterior, dessa vez parece haver um flerte (ainda) maior com a música eletrônica, ainda que a voz aveludada do artista continue sendo a sua marca registrada. Sobre o single mais recente - que teve o seu vídeo dirigido por Ilya Naishuller - o clipe tem avisos sobre violência explícita, já que mostra o artista em meio a um assalto que termina em um grande acidente (tudo coberto por sangue e MUITA violência cenográfica). Sabemos que ainda é cedo para afirmar qualquer coisa sobre o trabalho, mas, se levarmos em conta aquilo que já pudemos ver, não podemos negar: estamos mais do que Na Espera!
sábado, 15 de outubro de 2016
Na Espera - The Weeknd (Disco)
Desde que anunciou a chegada do sucessor de Beauty Behind the Madness - um dos nossos 25 Melhores Discos Internacionais de 2015 -, o novo disco do The Weeknd, intitulado Starboy, se tornou automaticamente um dos mais aguardados de 2016. Um dos principais nomes da música pop atual - quem não cantarolou mentalmente o refrão de Can't Feel My Face no ano passado? -, Abel Tesfaye parece não disposto a não perder tempo e programou o lançamento do próximo registro para o dia 25 de novembro. E, como forma de divulgar o futuro trabalho, já foram disponibilizados dois videoclipes: um para a faixa-título (que conta com a parceria do Daft Punk) e outro para a música False Alarm, que teve o seu caprichado vídeo lançado nesta semana.
O que se pode depreender das novas canções - e talvez do novo registro - é que, mais do que o R&B classudo adotado até o disco anterior, dessa vez parece haver um flerte (ainda) maior com a música eletrônica, ainda que a voz aveludada do artista continue sendo a sua marca registrada. Sobre o single mais recente - que teve o seu vídeo dirigido por Ilya Naishuller - o clipe tem avisos sobre violência explícita, já que mostra o artista em meio a um assalto que termina em um grande acidente (tudo coberto por sangue e MUITA violência cenográfica). Sabemos que ainda é cedo para afirmar qualquer coisa sobre o trabalho, mas, se levarmos em conta aquilo que já pudemos ver, não podemos negar: estamos mais do que Na Espera!
O que se pode depreender das novas canções - e talvez do novo registro - é que, mais do que o R&B classudo adotado até o disco anterior, dessa vez parece haver um flerte (ainda) maior com a música eletrônica, ainda que a voz aveludada do artista continue sendo a sua marca registrada. Sobre o single mais recente - que teve o seu vídeo dirigido por Ilya Naishuller - o clipe tem avisos sobre violência explícita, já que mostra o artista em meio a um assalto que termina em um grande acidente (tudo coberto por sangue e MUITA violência cenográfica). Sabemos que ainda é cedo para afirmar qualquer coisa sobre o trabalho, mas, se levarmos em conta aquilo que já pudemos ver, não podemos negar: estamos mais do que Na Espera!
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Cine Baú - Laranja Mecânica (A Clockwork Orange)
De: Stanley Kubrick. Com Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates e Philip Stone. Ficção Científica / Drama / Policial. Reino Unido / EUA, 1971, 137 minutos.
Poucas vezes um filme foi tão impactante em sua análise do círculo vicioso de violência a que o sujeito pode estar inserido - seja ele representado por ações pessoais ou pela opressão do Estado em sua relação com o indivíduo - do que no magistral Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), até hoje um dos mais cultuados filmes de Stanley Kubrick. Sim, a obra se passa em um futuro que não sabemos qual, com personagens excêntricos, figurinos e cenários assépticos e sombrios e linguagem estilizada. Mas o ponto nevrálgico da abordagem de Kubrick, tão cara aos tempos em que vivemos - em que o ódio, a intolerância e a falta de empatia, ou mesmo o fascismo travestido de ideologia política, são a ordem do dia - permanece inalterado. Aliás, em uma breve leitura das notícias do dia na internet não será difícil encontrar casos de espancamentos de moradores de rua, de estupros e de assassinatos, fora as agressões institucionais generalizadas promovidas a rodo tendo o lombo da população como alvo - como no recente caso da tão falada PEC 241.
A propósito, uma análise do filme de Kubrick feita da "frente pra trás" permite inferir o fato de que a legitimação da violência justamente por aqueles que deveriam prezar pelo bem-estar da população - sejam eles representados pelos governantes, pela polícia ou até mesmo pela Igreja - pode estar no cerne dos eventos que presenciamos nesse clássico. Na primeira metade do filme somos apresentados a Alex (Malcolm McDowell), líder de um grupo sádico de delinquentes (os drugues Peter, George e Dim) que tem como "diversão" aquilo que chamam de a boa e velha ultraviolência - que nada mais é do que roubar, matar e estuprar, além de passar os dias em uma taverna hedonista enchendo a cara de leite-com. (Aliás, o fato de se nutrirem com leite, ainda que batizado, não deixa de ser uma boa ironia, que pode estar relacionada aos estudos de Freud sobre o desejo sexual como energia motivacional primária da vida humana, e que seria latente desde a infância.)
Em um certo dia, o grupo de drugues passa a mostrar descontentamento com as ações de Alex, que reafirma sua liderança por meio de um ataque aos companheiros. Mais tarde, após invadir a mansão de uma ricaça, Alex a acertará com uma escultura de formato fálico - em uma das tantas sequências memoráveis da película - para, no instante seguinte ser traído por Dim, que o atinge com um copo no rosto. É a violência gerando violência num ciclo (quase) interminável e que resultará em Alex sendo preso e condenado a 14 anos de reclusão por assassinato - é o início da segunda parte. E, nas mãos do Estado após dois anos de sentença, será direcionado, por sua vontade, diga-se, para uma nova terapia experimental para criminosos, conhecida por Tratamento Ludovico. A terapia, que prende a pessoa a uma cadeira com os olhos permanentemente abertos, consiste em assistir à exaustão imagens de violências de todos os tipos com a intenção de refrear os impulsos destrutivos do sujeito, dando a ele condições de retornar para o convívio da sociedade.
Sim, Alex retorna a sociedade após um festival de abusos daqueles que lhe estão tratando, mas perde o que poderia ser considerado o livre-arbítrio. Ou a capacidade de fazer escolhas de acordo com a sua moral, uma das principais questões da película. E, como sujeito zumbificado (e, agora, bondoso), que se horroriza na prisão diante da presença de uma mulher de topless ou do lado de fora ao reencontrar os alvos de sua catártica violência - ou mesmo escutando Beethoven, seu compositor preferido - Alex passa a ser o não-humano, a laranja mecânica que dá nome ao filme (orgânica por fora, mecânica por dentro). Sim, é complexo. Sim é um grande filme. Sim, há toda uma abordagem política (é possível notar esse debate partindo dos próprios personagens em relação a situação de Alex), psicológica, social e filosófica que, se por um lado, pode representar uma verdadeira salada ideológica em que não existem mocinhos e nem bandidos, por outro representa a consagração de um diretor com pleno domínio da técnica e com ampla capacidade de análise de uma sociedade individualista, niilista e hedonista.
Laranja Mecânica era o oitavo filme de Kubrick, que já havia feito pelo menos dois outros clássicos: Dr. Fantástico (1964) e 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). E, até hoje, ele divide opiniões. Especialmente pela utilização de uma violência estilizada - que mais tarde seria repetida por tantos outros, como Tarantino - capaz de tornar os primeiros vinte minutos da película quase insuportáveis para alguns (e o que dizer da nova utilização de Singin In the Rain, na trilha?). Apresentando ainda uma sociedade hipersexualizada e fetichista que (parece) utilizar o prazer como válvula de escape - observe como em praticamente todos os cenários há imagens fálicas ou pinturas e fotos de homens e mulheres nus ou em atos sexuais (o que talvez pudesse tornar o comportamento de Alex e sua gangue mais "natural", se é que isso é possível) o filme ainda se encerra com uma dúvida em relação a nova condição de Alex, agora apadrinhado pelos engravatados que tanto lhe instigaram: estaria ele efetivamente curado? Mais um ponto positivo para este clássico, 46º colocado na lista de 100 Melhores do American Film Institute (AFI), divulgada em 1998.
Poucas vezes um filme foi tão impactante em sua análise do círculo vicioso de violência a que o sujeito pode estar inserido - seja ele representado por ações pessoais ou pela opressão do Estado em sua relação com o indivíduo - do que no magistral Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), até hoje um dos mais cultuados filmes de Stanley Kubrick. Sim, a obra se passa em um futuro que não sabemos qual, com personagens excêntricos, figurinos e cenários assépticos e sombrios e linguagem estilizada. Mas o ponto nevrálgico da abordagem de Kubrick, tão cara aos tempos em que vivemos - em que o ódio, a intolerância e a falta de empatia, ou mesmo o fascismo travestido de ideologia política, são a ordem do dia - permanece inalterado. Aliás, em uma breve leitura das notícias do dia na internet não será difícil encontrar casos de espancamentos de moradores de rua, de estupros e de assassinatos, fora as agressões institucionais generalizadas promovidas a rodo tendo o lombo da população como alvo - como no recente caso da tão falada PEC 241.
A propósito, uma análise do filme de Kubrick feita da "frente pra trás" permite inferir o fato de que a legitimação da violência justamente por aqueles que deveriam prezar pelo bem-estar da população - sejam eles representados pelos governantes, pela polícia ou até mesmo pela Igreja - pode estar no cerne dos eventos que presenciamos nesse clássico. Na primeira metade do filme somos apresentados a Alex (Malcolm McDowell), líder de um grupo sádico de delinquentes (os drugues Peter, George e Dim) que tem como "diversão" aquilo que chamam de a boa e velha ultraviolência - que nada mais é do que roubar, matar e estuprar, além de passar os dias em uma taverna hedonista enchendo a cara de leite-com. (Aliás, o fato de se nutrirem com leite, ainda que batizado, não deixa de ser uma boa ironia, que pode estar relacionada aos estudos de Freud sobre o desejo sexual como energia motivacional primária da vida humana, e que seria latente desde a infância.)
Em um certo dia, o grupo de drugues passa a mostrar descontentamento com as ações de Alex, que reafirma sua liderança por meio de um ataque aos companheiros. Mais tarde, após invadir a mansão de uma ricaça, Alex a acertará com uma escultura de formato fálico - em uma das tantas sequências memoráveis da película - para, no instante seguinte ser traído por Dim, que o atinge com um copo no rosto. É a violência gerando violência num ciclo (quase) interminável e que resultará em Alex sendo preso e condenado a 14 anos de reclusão por assassinato - é o início da segunda parte. E, nas mãos do Estado após dois anos de sentença, será direcionado, por sua vontade, diga-se, para uma nova terapia experimental para criminosos, conhecida por Tratamento Ludovico. A terapia, que prende a pessoa a uma cadeira com os olhos permanentemente abertos, consiste em assistir à exaustão imagens de violências de todos os tipos com a intenção de refrear os impulsos destrutivos do sujeito, dando a ele condições de retornar para o convívio da sociedade.
Sim, Alex retorna a sociedade após um festival de abusos daqueles que lhe estão tratando, mas perde o que poderia ser considerado o livre-arbítrio. Ou a capacidade de fazer escolhas de acordo com a sua moral, uma das principais questões da película. E, como sujeito zumbificado (e, agora, bondoso), que se horroriza na prisão diante da presença de uma mulher de topless ou do lado de fora ao reencontrar os alvos de sua catártica violência - ou mesmo escutando Beethoven, seu compositor preferido - Alex passa a ser o não-humano, a laranja mecânica que dá nome ao filme (orgânica por fora, mecânica por dentro). Sim, é complexo. Sim é um grande filme. Sim, há toda uma abordagem política (é possível notar esse debate partindo dos próprios personagens em relação a situação de Alex), psicológica, social e filosófica que, se por um lado, pode representar uma verdadeira salada ideológica em que não existem mocinhos e nem bandidos, por outro representa a consagração de um diretor com pleno domínio da técnica e com ampla capacidade de análise de uma sociedade individualista, niilista e hedonista.
Laranja Mecânica era o oitavo filme de Kubrick, que já havia feito pelo menos dois outros clássicos: Dr. Fantástico (1964) e 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). E, até hoje, ele divide opiniões. Especialmente pela utilização de uma violência estilizada - que mais tarde seria repetida por tantos outros, como Tarantino - capaz de tornar os primeiros vinte minutos da película quase insuportáveis para alguns (e o que dizer da nova utilização de Singin In the Rain, na trilha?). Apresentando ainda uma sociedade hipersexualizada e fetichista que (parece) utilizar o prazer como válvula de escape - observe como em praticamente todos os cenários há imagens fálicas ou pinturas e fotos de homens e mulheres nus ou em atos sexuais (o que talvez pudesse tornar o comportamento de Alex e sua gangue mais "natural", se é que isso é possível) o filme ainda se encerra com uma dúvida em relação a nova condição de Alex, agora apadrinhado pelos engravatados que tanto lhe instigaram: estaria ele efetivamente curado? Mais um ponto positivo para este clássico, 46º colocado na lista de 100 Melhores do American Film Institute (AFI), divulgada em 1998.
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Grandes Cenas do Cinema - Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall)
Filme: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
Cena: Sujeito pedante encontra o escritor Marshall McLuhan
Quando lançou Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall), em 1977, Woody Allen ainda representava uma refrescante novidade do cinema alternativo americano. Com apenas meia dúzia de filmes produzidos até aquele momento, o nova-iorquino, que vinha da escola das comédias de palco ao estilo stand up (hoje tão saturadas) adotava um estilo de humor muito mais escrachado e visual e que bebia da fonte de outros contemporâneos, caso do grupo britânico Monty Python. Não à toa, um olhar atento a obras como a deliciosa comédia A Última Noite de Boris Grushenko (1975) permitirá encontrar semelhanças na graça feita a moda das esquetes extravagantes que, de tão bobas, se tornam hilárias.
Foi com Noivo Neurótico... que o padrão mudou. Entrou em cena o protagonista excêntrico e neurótico (com o perdão da redundância), muitas vezes interpretado pelo próprio diretor. Um sujeito preocupado com temas como o medo da morte, preconceito judaico, conservadorismo exacerbado e inseguranças no que diz respeito a relacionamentos amorosos - e sobre sexo, claro. E, ainda, cheios de divagações sobre a condição humana, bem como os anseios, medos e angústias de um mundo em constante mudança. Sim, Allen viria a encarnar dezenas de vezes esse homem moderno, eventualmente cosmopolita e invariavelmente culto, que aproveitaria cada obra para despejar não apenas as suas frustrações e constrangimentos, mas também uma boa dose de cultura pop, subversão da linguagem cinematográfica (com as famosas quebras da chamada quarta parede) e roteiros absolutamente engenhosos, com diálogos idem.
A obra, que trata das idas e vinda do protagonista, um cínico comediante de nome Alvy Singer (Allen), com a cantora de casas noturnas Annie Hall (Diane Keaton) é um divertido e melancólico estudo sobre o fracasso nos relacionamentos, com ênfase nas inseguranças de um casal que podem fazer com que a tão sonhada vida a dois naufrague. São muitas as sequências hilárias - como esquecer o momento em que a dupla tenta cozinhar lagostas (vivas!) em uma casa de praia, sem muito sucesso? Mas certamente nenhuma cena é tão impagável como aquela em que o filósofo e teórico da comunicação Marshall McLuhan em pessoa aparece. Em uma fila de cinema, Singer se irrita com um sujeito presunçoso que dá uma aulinha particular (e rasa) sobre aquilo que entendeu dos ensinamentos de McLuhann criticando fortemente o seu trabalho. Para resolver a "questão" Woody promove um inesperado encontro entre ambos numa das melhores sequências da história em filmes do diretor. Quem não viu o filme pode conferir o vídeo pois ele não tem nenhum spoiler. E ainda dá conta do estilo absolutamente corrosivo de Allen, ainda em início de carreira!
Cena: Sujeito pedante encontra o escritor Marshall McLuhan
Quando lançou Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall), em 1977, Woody Allen ainda representava uma refrescante novidade do cinema alternativo americano. Com apenas meia dúzia de filmes produzidos até aquele momento, o nova-iorquino, que vinha da escola das comédias de palco ao estilo stand up (hoje tão saturadas) adotava um estilo de humor muito mais escrachado e visual e que bebia da fonte de outros contemporâneos, caso do grupo britânico Monty Python. Não à toa, um olhar atento a obras como a deliciosa comédia A Última Noite de Boris Grushenko (1975) permitirá encontrar semelhanças na graça feita a moda das esquetes extravagantes que, de tão bobas, se tornam hilárias.
Foi com Noivo Neurótico... que o padrão mudou. Entrou em cena o protagonista excêntrico e neurótico (com o perdão da redundância), muitas vezes interpretado pelo próprio diretor. Um sujeito preocupado com temas como o medo da morte, preconceito judaico, conservadorismo exacerbado e inseguranças no que diz respeito a relacionamentos amorosos - e sobre sexo, claro. E, ainda, cheios de divagações sobre a condição humana, bem como os anseios, medos e angústias de um mundo em constante mudança. Sim, Allen viria a encarnar dezenas de vezes esse homem moderno, eventualmente cosmopolita e invariavelmente culto, que aproveitaria cada obra para despejar não apenas as suas frustrações e constrangimentos, mas também uma boa dose de cultura pop, subversão da linguagem cinematográfica (com as famosas quebras da chamada quarta parede) e roteiros absolutamente engenhosos, com diálogos idem.
A obra, que trata das idas e vinda do protagonista, um cínico comediante de nome Alvy Singer (Allen), com a cantora de casas noturnas Annie Hall (Diane Keaton) é um divertido e melancólico estudo sobre o fracasso nos relacionamentos, com ênfase nas inseguranças de um casal que podem fazer com que a tão sonhada vida a dois naufrague. São muitas as sequências hilárias - como esquecer o momento em que a dupla tenta cozinhar lagostas (vivas!) em uma casa de praia, sem muito sucesso? Mas certamente nenhuma cena é tão impagável como aquela em que o filósofo e teórico da comunicação Marshall McLuhan em pessoa aparece. Em uma fila de cinema, Singer se irrita com um sujeito presunçoso que dá uma aulinha particular (e rasa) sobre aquilo que entendeu dos ensinamentos de McLuhann criticando fortemente o seu trabalho. Para resolver a "questão" Woody promove um inesperado encontro entre ambos numa das melhores sequências da história em filmes do diretor. Quem não viu o filme pode conferir o vídeo pois ele não tem nenhum spoiler. E ainda dá conta do estilo absolutamente corrosivo de Allen, ainda em início de carreira!
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
Cinemúsica - Forrest Gump: O Contador de Histórias
Forrest Gump: O Contador de Histórias (Forrest Gump) é o cinemão por excelência. Se por um lado equilibra a tradição do filme épico - com seus protagonistas heroicos e eventos históricos -, por outro, com estilo fluído e despretensioso, resulta em uma daquelas saborosas obras que conhecemos pela alcunha de Estilo Sessão da Tarde. No auge de sua capacidade de atuação, Tom Hanks, que ganharia o seu segundo Oscar seguido pelo papel (no ano anterior já havia vencido pela comovente caracterização de um jovem advogado diagnosticado com o vírus da AIDS em Filadélfia), interpreta o protagonista. Um sujeito de modos simples, inadvertidamente tímido e inseguro e, ainda por cima, com QI abaixo da média. Mas que, devido a sua quase milagrosa persistência, consegue ser figura onipresente em uma série de acontecimentos reais da história americana recente se tornando, de quebra, um homem de negócios bem sucedido - bem ao modo como amam os americanos, diga-se.
Lembra do Tourist Guy que, após os eventos relacionados ao 11 de setembro, teve uma série de fotos (fictícias, claro), divulgadas em acontecimentos catastróficos históricos? Bom, Forrest teve uma vida parecida e, certamente, menos trágica. Em sua trajetória, que começa com o inevitável bullyng na escola por conta de um problema de coluna que o faz usar um aparelho nas pernas (que milagrosamente desaparece), o jovem ensinará Elvis Presley a requebrar. Após, jogará futebol americano, sendo campeão do Super Bowl. Será combatente na Guerra do Vietnã, recebendo medalha de honra das mãos do presidente Lyndon Johnson pelo resgate heroico de colegas, entre eles o Tenente Dan (Gary Sinise). Conhecerá também os presidentes Kennedy e Nixon, sendo um dos responsáveis diretos pelo escândalo de Watergate. Inspirará John Lennon para a canção Imagine, será fera em tênis de mesa e se tornará magnata da indústria de camarões enlatados. E tudo isso sem esquecer aquela que ele considera o amor de sua vida, Jenny (Robin Wright). Ufa!
Não bastasse a inserção do protagonista em imagens e fotos históricas - em um trabalho bacana e divertido de edição de Arthur Schmidt, que seria premiado com o Oscar - o diretor Robert Zemeckis ainda reforça a ideia do filme enquanto painel semidocumental de um cenário político-ideológico-cultural da segunda metade do século 20, por meio da inserção de um verdadeiro catálogo de clássicos musicais do período. Se as cenas nos fazem rir e chorar numa mescla soberba e orgânica de estilos, a presença de canções de grupos e artistas tão distintos, como, Joan Baez, The Mamas & The Papas, The Doors, Simon & Garfunkel, Aretha Franklin, Beach Boys, The Byrds e Bob Dylan, só torna a experiência ainda mais saborosa. Nesse sentido, não há exatamente um momento que se sobressaia e sim um conjunto capaz de trazer a baila a importância do legado da contracultura - especialmente nas cenas com Jenny - como um contraponto aos valores preponderantes do "sonho americano", como o patriotismo, o consumismo e a importância da ascensão social. (ainda que a morte de Jenny ao final e a exaltação dos "feitos" alcançados por Forrest, vamos combinar, signifique EXATAMENTE o contrário)
Não é por acaso que a presença de canções como Volunteers, do Jefferson Airplane (Look what's happening out in the streets / Got a revolution, got to revolution), Respect, da Aretha Franklin (All I'm askin' (oo) / Is for a little respect when you come home), além da autoexplicativa What the World Needs Now Is Love, de Jackie DeShannon, são tão representativas para ilustrar um mundo que se mostrava em permanente transformação. E que possibilitava, por exemplo, a ascensão e o reconhecimento por parte da sociedade de um jovem "problemático" como Forrest. Talvez não seja exagero, nesse sentido, entender a jornada de Forrest e o fato deste ter "vencido na vida" contra todas as possibilidades, como uma espécie de mensagem de crença nas potencialidades, independente de cor, raça, credo ou capacidade intelectual. Sim, parece autoajuda, e talvez seja. Ainda que meio difusa, já que o filme parece mais voltado a americanos, brancos, conservadores, religiosos e bem sucedidos.
Bom, talvez Forrest Gump não seja um filme tão profundo. Ou mesmo as canções talvez não quisessem passar toda essa mensagem - há muitas críticas a presença do amigo Bubba (Mykelti Williamsom) como um mero coadjuvante que parece passar pelos mesmos problemas. Mas gosto de pensar na obra de Zemeckis, que no fim faturaria a estatueta dourada máxima daquele ano (injustamente, diga-se: é só ver a lista de indicados), como uma obra de mais envergadura do que parece, mesmo que tenha um pé na aventura e no cinema de ação despretensioso, capaz de resvalar ainda no drama romântico. Intencional ou não o caso é que a trilha sonora, lançada em disco duplo com 34 clássicos do cancioneiro americano, foi uma das mais vendidas da história, com mais de 12 milhões de cópias comercializadas. "O objetivo foi fazer uma linha do tempo através da música sem interferir na história que estava sendo contada", explicou na época o produtor musical Joel Sill, no livro Música Pop no Cinema, de Rodrigo Rodrigues. Mas com tantos clássicos, com tantos petardos inesquecíveis, o que menos ocorre com essa trilha é ela passar despercebida.
Lembra do Tourist Guy que, após os eventos relacionados ao 11 de setembro, teve uma série de fotos (fictícias, claro), divulgadas em acontecimentos catastróficos históricos? Bom, Forrest teve uma vida parecida e, certamente, menos trágica. Em sua trajetória, que começa com o inevitável bullyng na escola por conta de um problema de coluna que o faz usar um aparelho nas pernas (que milagrosamente desaparece), o jovem ensinará Elvis Presley a requebrar. Após, jogará futebol americano, sendo campeão do Super Bowl. Será combatente na Guerra do Vietnã, recebendo medalha de honra das mãos do presidente Lyndon Johnson pelo resgate heroico de colegas, entre eles o Tenente Dan (Gary Sinise). Conhecerá também os presidentes Kennedy e Nixon, sendo um dos responsáveis diretos pelo escândalo de Watergate. Inspirará John Lennon para a canção Imagine, será fera em tênis de mesa e se tornará magnata da indústria de camarões enlatados. E tudo isso sem esquecer aquela que ele considera o amor de sua vida, Jenny (Robin Wright). Ufa!
Não bastasse a inserção do protagonista em imagens e fotos históricas - em um trabalho bacana e divertido de edição de Arthur Schmidt, que seria premiado com o Oscar - o diretor Robert Zemeckis ainda reforça a ideia do filme enquanto painel semidocumental de um cenário político-ideológico-cultural da segunda metade do século 20, por meio da inserção de um verdadeiro catálogo de clássicos musicais do período. Se as cenas nos fazem rir e chorar numa mescla soberba e orgânica de estilos, a presença de canções de grupos e artistas tão distintos, como, Joan Baez, The Mamas & The Papas, The Doors, Simon & Garfunkel, Aretha Franklin, Beach Boys, The Byrds e Bob Dylan, só torna a experiência ainda mais saborosa. Nesse sentido, não há exatamente um momento que se sobressaia e sim um conjunto capaz de trazer a baila a importância do legado da contracultura - especialmente nas cenas com Jenny - como um contraponto aos valores preponderantes do "sonho americano", como o patriotismo, o consumismo e a importância da ascensão social. (ainda que a morte de Jenny ao final e a exaltação dos "feitos" alcançados por Forrest, vamos combinar, signifique EXATAMENTE o contrário)
Não é por acaso que a presença de canções como Volunteers, do Jefferson Airplane (Look what's happening out in the streets / Got a revolution, got to revolution), Respect, da Aretha Franklin (All I'm askin' (oo) / Is for a little respect when you come home), além da autoexplicativa What the World Needs Now Is Love, de Jackie DeShannon, são tão representativas para ilustrar um mundo que se mostrava em permanente transformação. E que possibilitava, por exemplo, a ascensão e o reconhecimento por parte da sociedade de um jovem "problemático" como Forrest. Talvez não seja exagero, nesse sentido, entender a jornada de Forrest e o fato deste ter "vencido na vida" contra todas as possibilidades, como uma espécie de mensagem de crença nas potencialidades, independente de cor, raça, credo ou capacidade intelectual. Sim, parece autoajuda, e talvez seja. Ainda que meio difusa, já que o filme parece mais voltado a americanos, brancos, conservadores, religiosos e bem sucedidos.
sábado, 8 de outubro de 2016
Lançamento de Videoclipe - Woods (Politics Of Free)
O mais recente disco do Woods - City Sun Eater in the River Of Light - pode até não ser tão gracioso e elegante como alguns registros anteriores, casos de At Echo Lake (2010) ou mesmo Bend Beyond (2012). Mas, ainda assim, se constitui em um dos melhores discos de 2016, representando parte de um processo natural de evolução na sonoridade dos nova-iorquinos. E como forma de seguir na divulgação do trabalho, a banda capitaneada por Jeremy Earl lançou um clipe para a música Politics Of Free. O vídeo, dirigido por Robbie Simon, mostra o grupo em um clima descontraído (e eventualmente bucólico) tocando no festival Northern California - e se divertindo muito com isso. Você não conhece o Woods? Então não perde tempo e clica. Até mesmo porque a mistura de folk com psicodelia litorânea e uma pitada de jazz promovida pelo quinteto é simplesmente irresistível!
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
Tesouros Cinéfilos - Blind
De: Eskil Vogt. Com Ellen Dorrit Petersen, Henrik Rafaelsen, Vera Vitali e Marius Kolbenstvedt. Drama / Suspense, Noruega, 2014, 96 minutos.
Ao analisar a nossa condição de humanos, e ignorando o eventual aspecto reducionista desta constatação, seria possível dizer que somos constituídos por duas "partes". Uma delas seria aquela que é visível - nosso corpo, cor da pele e dos olhos, formato do rosto, tipo de cabelo. A outra seria a que está no nosso íntimo e que apenas nós somos capazes de lidar: nossos medos, angústias, frustrações, desejos, temores, fetiches, preconceitos, alegrias. Aquilo que pensamos e que só pode ser expresso por meio raciocínio, do gesto, da fala. Em geral é o que não vemos, ao menos de saída. É o que sentimos. E que pode fluir no campo das ideias, do imaginário, do fluxo de pensamento. Transformar este turbilhão que nos inunda em algo "palpável", a partir do ponto de vista de uma pessoa cega, é simplesmente o maior achado deste verdadeiro Tesouro Cinéfilo que é a produção norueguesa Blind.
Nessa pequena obra-prima do cinema contemporâneo somos apresentados a personagem Ingrid (Ellen Dorrit Petersen), que, por conta de uma doença degenerativa, está perdendo a visão. A abertura do filme já a mostra em seu apartamento, com suas divagações a respeito do antes e depois do mal que lhe acometeu a possibilidade de enxergar o mundo e de como ela vai tentando lidar com a situação, que ainda é nova. Não demora para que sejamos apresentados a outros personagens, entre eles a solitária mãe solteira Elin (Vera Vitali), que parece ter como único propósito de vida as visitas de seu filho de 12 anos nos finais de semana, além do introspectivo Einar (Marius Kolbenstvedt) que, com a dificuldade de se relacionar com as pessoas no "mundo real", passa os seus dias se masturbando enquanto assiste vídeos pornográficos fetichistas na internet.
Mas o que se tem por "mundo real" também parece ser um universo de incertezas em Blind. Ingrid tem dificuldades em sair do apartamento. Se sente insegura e, por isso, se imagina, a partir dos barulhos que ouve em casas ao lado, nos corredores e nas ruas - e que parecem ser DENTRO de sua sala - visitada por seu marido, Morten (Henrik Rafaelsen), as escondidas, como se este quisesse lhe provocar ou pregar algum tipo de peça. Estaria ele brincando com ela? Ficando mais frio ou distante? Não demora muito para que compreendamos o fato de que, no filme, os acontecimentos de verdade se mesclam com aqueles que são fruto da imaginação fértil da protagonista. As interações entre Morten, Elin e Einar são verdadeiras? Ou não passam de devaneios de Ingrid?
Magistral em utilizar a mise-en-scéne, a fotografia e a edição e a mixagem de som para, propositalmente, confundir o espectador - seja por meio de planos detalhe claustrofóbicos ou por meio da trilha diegética sufocante -, o diretor Eskil Vogt ainda ganha muitos pontos por tratar a sua protagonista como uma pessoa como qualquer outra, cheia de inseguranças, vontades, sonhos (e não como uma "pobre coitada" que deixou de ver). É um ponto que guarda semelhança com o tocante filme nacional Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, também lançado em 2014. Nesse sentido, o distanciamento do marido no que diz respeito ao ponto de vista sexual seria algo de fato, ou também resultado de um processo que delimita a capacidade de a protagonista enxergar, que seja, a expressão de seu companheiro? São perguntas que ficam.
Rico em detalhes, complexo em alguns pontos, lento em sua fluidez, mas, ainda assim, absolutamente tocante, Blind oferece ao espectador uma verdadeira experiência sensorial cinematográfica que foge da lógica estabelecida pelo mercado e da qual estamos acostumados, com começo meio e fim bem definidos, assim como "mocinhos", "bandidos" e tudo o mais. Isso sem contar as interpretações elegantes e cheias de potência e versatilidade e o roteiro intrigante - que resultou em premiações em Berlim e Sundance. Não é um filme de fácil "digestão", mas é daqueles que nos faz pensar (e muito) sobre aquilo que vimos. E que, muito provavelmente, resultará em mais perguntas do que respostas ao seu final - que ainda é capaz de reservar uma divertida surpresa, quando da "libertação" de sua principal personagem.
Ao analisar a nossa condição de humanos, e ignorando o eventual aspecto reducionista desta constatação, seria possível dizer que somos constituídos por duas "partes". Uma delas seria aquela que é visível - nosso corpo, cor da pele e dos olhos, formato do rosto, tipo de cabelo. A outra seria a que está no nosso íntimo e que apenas nós somos capazes de lidar: nossos medos, angústias, frustrações, desejos, temores, fetiches, preconceitos, alegrias. Aquilo que pensamos e que só pode ser expresso por meio raciocínio, do gesto, da fala. Em geral é o que não vemos, ao menos de saída. É o que sentimos. E que pode fluir no campo das ideias, do imaginário, do fluxo de pensamento. Transformar este turbilhão que nos inunda em algo "palpável", a partir do ponto de vista de uma pessoa cega, é simplesmente o maior achado deste verdadeiro Tesouro Cinéfilo que é a produção norueguesa Blind.
Nessa pequena obra-prima do cinema contemporâneo somos apresentados a personagem Ingrid (Ellen Dorrit Petersen), que, por conta de uma doença degenerativa, está perdendo a visão. A abertura do filme já a mostra em seu apartamento, com suas divagações a respeito do antes e depois do mal que lhe acometeu a possibilidade de enxergar o mundo e de como ela vai tentando lidar com a situação, que ainda é nova. Não demora para que sejamos apresentados a outros personagens, entre eles a solitária mãe solteira Elin (Vera Vitali), que parece ter como único propósito de vida as visitas de seu filho de 12 anos nos finais de semana, além do introspectivo Einar (Marius Kolbenstvedt) que, com a dificuldade de se relacionar com as pessoas no "mundo real", passa os seus dias se masturbando enquanto assiste vídeos pornográficos fetichistas na internet.
Mas o que se tem por "mundo real" também parece ser um universo de incertezas em Blind. Ingrid tem dificuldades em sair do apartamento. Se sente insegura e, por isso, se imagina, a partir dos barulhos que ouve em casas ao lado, nos corredores e nas ruas - e que parecem ser DENTRO de sua sala - visitada por seu marido, Morten (Henrik Rafaelsen), as escondidas, como se este quisesse lhe provocar ou pregar algum tipo de peça. Estaria ele brincando com ela? Ficando mais frio ou distante? Não demora muito para que compreendamos o fato de que, no filme, os acontecimentos de verdade se mesclam com aqueles que são fruto da imaginação fértil da protagonista. As interações entre Morten, Elin e Einar são verdadeiras? Ou não passam de devaneios de Ingrid?
Magistral em utilizar a mise-en-scéne, a fotografia e a edição e a mixagem de som para, propositalmente, confundir o espectador - seja por meio de planos detalhe claustrofóbicos ou por meio da trilha diegética sufocante -, o diretor Eskil Vogt ainda ganha muitos pontos por tratar a sua protagonista como uma pessoa como qualquer outra, cheia de inseguranças, vontades, sonhos (e não como uma "pobre coitada" que deixou de ver). É um ponto que guarda semelhança com o tocante filme nacional Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, também lançado em 2014. Nesse sentido, o distanciamento do marido no que diz respeito ao ponto de vista sexual seria algo de fato, ou também resultado de um processo que delimita a capacidade de a protagonista enxergar, que seja, a expressão de seu companheiro? São perguntas que ficam.
Rico em detalhes, complexo em alguns pontos, lento em sua fluidez, mas, ainda assim, absolutamente tocante, Blind oferece ao espectador uma verdadeira experiência sensorial cinematográfica que foge da lógica estabelecida pelo mercado e da qual estamos acostumados, com começo meio e fim bem definidos, assim como "mocinhos", "bandidos" e tudo o mais. Isso sem contar as interpretações elegantes e cheias de potência e versatilidade e o roteiro intrigante - que resultou em premiações em Berlim e Sundance. Não é um filme de fácil "digestão", mas é daqueles que nos faz pensar (e muito) sobre aquilo que vimos. E que, muito provavelmente, resultará em mais perguntas do que respostas ao seu final - que ainda é capaz de reservar uma divertida surpresa, quando da "libertação" de sua principal personagem.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
Cinema - Demônio de Neon (The Neon Demon)
De: Nicolas Winding Refn. Com: Elle Faning, Christina Hendricks, Karl Glusman e Keanu Reeves. Terror, França/Dinamarca/Estados Unidos, 2016, 118 minutos.
O cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn vem se firmando como um diretor de estilo bastante peculiar desde seu sucesso internacional com o já clássico Drive, de 2011. Câmera lenta, fotografia belíssima, trilha sintetizada, atuações etéreas, violência onipresente, clima sufocante - tudo faz parte do cardápio fornecido pelo realizador que vem sendo cultuado por uns, odiado por outros. E a julgar pelo seu filme anterior, Só Deus Perdoa, de 2013, Refn não quer aproveitar a fama recente para facilitar a vida do espectador em suas obras, o que talvez explique as sucessivas vaias no Festival de Cannes (onde o mesmo ganhou o prêmio de melhor diretor por Drive) para seus dois últimos filmes, incluindo esta sua mais recente obra, Demônio de Neon (The Neon Demon). Se antes o diretor dinamarquês havia se aventurado pelo submundo das lutas e drogas tailandês, aqui é o mundo da moda norte-americano que é retratado - o que, diga-se de passagem, casa muito bem com a frieza e estilização com que o diretor adora temperar suas obras.
Jesse (Faning) é uma jovem aspirante a modelo que chega a Los Angeles para tentar a sorte na nova profissão, sendo invejada pela sua beleza, juventude e vitalidade por outras "colegas" de profissão. Se num primeiro momento vemos a personagem principal como um poço de inocência, logo podemos imaginar que sua vida a partir daí não será nada fácil, ao ser forçada a conviver em um ambiente onde a competitividade e a inveja podem alcançar níveis inimagináveis, sentimentos estes retratados metaforicamente de forma bastante contundente e cruel. Além disso, Jesse passa seus dias em um quarto de hotel decadente gerenciado pelo mau caráter Hank (interpretado por Keanu Reeves, que parece se divertir bastante com o papel), intensificando ainda mais o clima de horror que passará a fazer parte de seu cotidiano.
Até então nada de novo, tramas assim são bastante comuns no cinema. No entanto, a grande diferença de Demônio de Neon para os demais está no toque de seu realizador: se o elenco não entrega atuações marcantes (à exceção de Faning que, com sua beleza e inocência, serve perfeitamente para o papel) e o roteiro parece um tanto vazio, é justamente o clima de terror que perpassa a obra o seu ponto forte. Se a trilha sonora contribui para a criação da ambiência, a lindíssima fotografia serve para acentuar ainda mais os momentos mais chocantes, que lembram o gore em algums momentos. Tudo aqui é extremamente gélido, principalmente as relações interpessoais, algo muito representativo de um meio onde pessoas são avaliadas apenas por seus corpos, referenciados pelas faces sem expressão daquelas que, recheadas de botox, passam a invejar a "beleza natural" de Jesse. E é sintomático que no momento em que o jovem fotógrafo Dean (Glusman) busca se aproximar e demonstrar algum afeto pela personagem de Faning, este é logo afastado pela moça.
Exercício estilístico, filme de gênero, homenagem aos cineastas favoritos de seu diretor (há um quê de Kubrick e David Lynch aqui), tudo isso pode ser relacionado a Demônio Neon, e o mesmo sai-se bem nestes quesitos. Se falta profundidade no enredo, sobram imagens marcantes e cenas perturbadoras. Uma, em especial, não lembro de ter visto antes na telona, e certamente vai marcar a vida de cinéfilo de quem assistir. Para quem é fã do cinema de Refn, certamente será uma boa pedida - muito embora seu cinema autoral já comece a demonstrar algum sinal de cansaço, sem o mesmo arrebatamento das obras anteriores. Não é a toa que grande parte da crítica mundial tem tratado de execrar o criador, alegando uma certa auto-indulgência pós vitória em Cannes. Particularmente, não achamos que é para tanto. Embora longe de ser uma obra-prima, Demônio Neon é uma experiência interessante de ser apreciada por quem simplesmente curte cinema.
Nota: 7,2.
O cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn vem se firmando como um diretor de estilo bastante peculiar desde seu sucesso internacional com o já clássico Drive, de 2011. Câmera lenta, fotografia belíssima, trilha sintetizada, atuações etéreas, violência onipresente, clima sufocante - tudo faz parte do cardápio fornecido pelo realizador que vem sendo cultuado por uns, odiado por outros. E a julgar pelo seu filme anterior, Só Deus Perdoa, de 2013, Refn não quer aproveitar a fama recente para facilitar a vida do espectador em suas obras, o que talvez explique as sucessivas vaias no Festival de Cannes (onde o mesmo ganhou o prêmio de melhor diretor por Drive) para seus dois últimos filmes, incluindo esta sua mais recente obra, Demônio de Neon (The Neon Demon). Se antes o diretor dinamarquês havia se aventurado pelo submundo das lutas e drogas tailandês, aqui é o mundo da moda norte-americano que é retratado - o que, diga-se de passagem, casa muito bem com a frieza e estilização com que o diretor adora temperar suas obras.
Jesse (Faning) é uma jovem aspirante a modelo que chega a Los Angeles para tentar a sorte na nova profissão, sendo invejada pela sua beleza, juventude e vitalidade por outras "colegas" de profissão. Se num primeiro momento vemos a personagem principal como um poço de inocência, logo podemos imaginar que sua vida a partir daí não será nada fácil, ao ser forçada a conviver em um ambiente onde a competitividade e a inveja podem alcançar níveis inimagináveis, sentimentos estes retratados metaforicamente de forma bastante contundente e cruel. Além disso, Jesse passa seus dias em um quarto de hotel decadente gerenciado pelo mau caráter Hank (interpretado por Keanu Reeves, que parece se divertir bastante com o papel), intensificando ainda mais o clima de horror que passará a fazer parte de seu cotidiano.
Exercício estilístico, filme de gênero, homenagem aos cineastas favoritos de seu diretor (há um quê de Kubrick e David Lynch aqui), tudo isso pode ser relacionado a Demônio Neon, e o mesmo sai-se bem nestes quesitos. Se falta profundidade no enredo, sobram imagens marcantes e cenas perturbadoras. Uma, em especial, não lembro de ter visto antes na telona, e certamente vai marcar a vida de cinéfilo de quem assistir. Para quem é fã do cinema de Refn, certamente será uma boa pedida - muito embora seu cinema autoral já comece a demonstrar algum sinal de cansaço, sem o mesmo arrebatamento das obras anteriores. Não é a toa que grande parte da crítica mundial tem tratado de execrar o criador, alegando uma certa auto-indulgência pós vitória em Cannes. Particularmente, não achamos que é para tanto. Embora longe de ser uma obra-prima, Demônio Neon é uma experiência interessante de ser apreciada por quem simplesmente curte cinema.
Nota: 7,2.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Disco da Semana - Bon Iver (22, A Million)
Colagens sonoras, vocais sobrepostos e repletos de autotune, efeitos eletrônicos diversos. A descrição de algumas características do novo registro do cantor Justin Vernon, 22, A Million, terceiro sob o nome de Bon Iver, revela uma clara mudança de rota no que diz respeito ao estilo adotado pelo artista. A propósito, modificações mais do que bem-vindas no que diz respeito ao amadurecimento de Vernon. Se nos espetaculares For Emma, Forever Ago (2008) e Bon Iver, o homônimo registro de 2011, a predominância era de uma sonoridade em que se sobressaia uma melancolia doce, emanada por uma espécie de folk invernal capaz de se mostrar pungente e econômico na mesma medida, o novo trabalho parece se afastar, ao menos em partes, desse modelo. Algo que pode ser percebido não apenas nas melodias - difíceis, desconexas, caóticas - mas também na capa ou mesmo nos nomes das canções.
Em entrevista para a imprensa especializada no começo do mês de setembro, Vernon comentou que se sentia andando "em círculos" e que fazer um novo álbum no estilo dos anteriores poderia ser algo chato. "Sim, estar triste pode ser algo bom e eu estava utilizando aquele material para me curar", revelou. "E mesmo que este novo trabalho tenha elementos obscuros eu me sinto muito mais 'gritando 'do que 'sussurrando'", analisou. Na mesma entrevista, o artista disse que fez uma curiosa viagem para as ilhas gregas fora da temporada, o que lhe deixou muito mal. "Estava tentando me encontrar, mas me senti esquisito, pobre. E ainda havia uma voz na minha cabeça, que dizia 'this feeling might be over soon (esse sentimento logo vai passar)'" que, não por acaso, se tornou a frase inaugural do registro, presente na canção 22 (OVER S∞∞N).
Este sentimento particular de busca, somado ainda ao contato com artistas como Francis and the Lights, James Blake, Volcano Choir e Kanye West, fosse para parcerias ou colaborações, representou um claro enriquecimento no repertório de Vernon que, longe de parecer estagnado ou acomodado em um mesmo ambiente musical, se mostrou um artista em constante movimento. Não é por acaso que canções 10 d E A T h b R E a s T ⊠ ⊠ e 715 - CRΣΣKS com seu clima perturbador e vocais cheios de efeito, mais parecem fruto de um curioso encontro entre o Bon Iver com o Radiohead fase Kid A - e não poderia haver melhor elogio para definir o novo trabalho de Vernon, em que há uma clara ruptura da lógica, uma quebra incômoda na musicalidade, do que compará-lo com o fundamental disco de Thom Yorke e companhia, lançado há exatos 16 anos, em outubro de 2000.
Nesse sentido, talvez não seja tão fácil encontrar beleza, ao menos de saída, no novo registro, que certamente exigirá do ouvinte muito mais do que meia dúzia de audições. (a boa notícia é que são apenas 10 músicas e pouco mais de 35 minutos) E se 33 “GOD” mais parece Bon Iver das antigas, sendo possível (quase) encontrar uma musicalidade a moda de Holocene ou Perth, em que até ocorre um flerte com o refrão, não são necessárias nem mais duas músicas para que retornemos as orquestrações minimalistas, as curvas altamente enigmáticas e ao conjunto propositalmente "bagunçado" que pontua todo o trabalho. E se você está achando estranho o nome das canções - 666 ʇ, 21 M♢♢N WATER - é preciso que se diga que, assim como no caso da capa, de grande riqueza gráfica, a adoção desses elementos também integra o conceito do disco.
Para quem nunca escutou Bon Iver, o contato direto com 22, A Million pode representar um certo "choque", ainda que não haja uma completa fuga das emanações etéreas tão tradicionais nos registros anteriores - e que aqui aparecem transformadas em um instrumental muito mais eletrônico do que folk. (ainda que, por exemplo, músicas como 00000 Million talvez não fizessem feio em um álbum um pouco menos previsível de um Fleet Foxes ou mesmo de um Mumford and Sons). Agora, se você está habituado aos sons desafiadores, não se importa com a quebra de paradigma no que diz respeito a dupla estrofe/refrão e procura artistas que gostam de se reinventar, que possam oxigenar as suas audições e que tenham em certa complexidade de execução a sua força criativa, bom, bem-vindo a um dos melhores discos do ano.
Nota: 8,8
Em entrevista para a imprensa especializada no começo do mês de setembro, Vernon comentou que se sentia andando "em círculos" e que fazer um novo álbum no estilo dos anteriores poderia ser algo chato. "Sim, estar triste pode ser algo bom e eu estava utilizando aquele material para me curar", revelou. "E mesmo que este novo trabalho tenha elementos obscuros eu me sinto muito mais 'gritando 'do que 'sussurrando'", analisou. Na mesma entrevista, o artista disse que fez uma curiosa viagem para as ilhas gregas fora da temporada, o que lhe deixou muito mal. "Estava tentando me encontrar, mas me senti esquisito, pobre. E ainda havia uma voz na minha cabeça, que dizia 'this feeling might be over soon (esse sentimento logo vai passar)'" que, não por acaso, se tornou a frase inaugural do registro, presente na canção 22 (OVER S∞∞N).
Este sentimento particular de busca, somado ainda ao contato com artistas como Francis and the Lights, James Blake, Volcano Choir e Kanye West, fosse para parcerias ou colaborações, representou um claro enriquecimento no repertório de Vernon que, longe de parecer estagnado ou acomodado em um mesmo ambiente musical, se mostrou um artista em constante movimento. Não é por acaso que canções 10 d E A T h b R E a s T ⊠ ⊠ e 715 - CRΣΣKS com seu clima perturbador e vocais cheios de efeito, mais parecem fruto de um curioso encontro entre o Bon Iver com o Radiohead fase Kid A - e não poderia haver melhor elogio para definir o novo trabalho de Vernon, em que há uma clara ruptura da lógica, uma quebra incômoda na musicalidade, do que compará-lo com o fundamental disco de Thom Yorke e companhia, lançado há exatos 16 anos, em outubro de 2000.
Nesse sentido, talvez não seja tão fácil encontrar beleza, ao menos de saída, no novo registro, que certamente exigirá do ouvinte muito mais do que meia dúzia de audições. (a boa notícia é que são apenas 10 músicas e pouco mais de 35 minutos) E se 33 “GOD” mais parece Bon Iver das antigas, sendo possível (quase) encontrar uma musicalidade a moda de Holocene ou Perth, em que até ocorre um flerte com o refrão, não são necessárias nem mais duas músicas para que retornemos as orquestrações minimalistas, as curvas altamente enigmáticas e ao conjunto propositalmente "bagunçado" que pontua todo o trabalho. E se você está achando estranho o nome das canções - 666 ʇ, 21 M♢♢N WATER - é preciso que se diga que, assim como no caso da capa, de grande riqueza gráfica, a adoção desses elementos também integra o conceito do disco.
Para quem nunca escutou Bon Iver, o contato direto com 22, A Million pode representar um certo "choque", ainda que não haja uma completa fuga das emanações etéreas tão tradicionais nos registros anteriores - e que aqui aparecem transformadas em um instrumental muito mais eletrônico do que folk. (ainda que, por exemplo, músicas como 00000 Million talvez não fizessem feio em um álbum um pouco menos previsível de um Fleet Foxes ou mesmo de um Mumford and Sons). Agora, se você está habituado aos sons desafiadores, não se importa com a quebra de paradigma no que diz respeito a dupla estrofe/refrão e procura artistas que gostam de se reinventar, que possam oxigenar as suas audições e que tenham em certa complexidade de execução a sua força criativa, bom, bem-vindo a um dos melhores discos do ano.
Nota: 8,8
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