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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Cinema - A Voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab)

De: Kaouther Ben Hania. Com Motaz Malhees, Saja Kilani, Clara Khouri e Amer Hlehel. Drama, Tunísia / França / EUA, 2025, 89 minutos.

"Vocês acham mesmo que a voz desesperada de uma criança vai despertar a empatia deles?". Vamos combinar que a pergunta feita pelo socorrista Omar (Motaz Malhees), perto do terço final de A Voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab), é de uma franqueza excruciante. Àquela altura, tanto Omar quanto Rana (Saja Kilani) e a terapeuta Nisreen (Clara Khouri) parecem já exaustos, incomodados, desesperançosos. Gritam entre si em meio a um estresse alarmante - e não poderia ser diferente, como integrantes do movimento internacional humanitário Crescente Vermelho que, ali, atua junto à Faixa de Gaza. O período é o início daquela que ficaria marcada como uma das mais violentas e desmedidas ações militares de nossos tempos - a do genocídio perpetrado pelo exército de Israel contra o povo palestino. Milhares de pessoas morreram. Milhares de CRIANÇAS morreram. E seguem morrendo. A voz desesperada de uma criança é só mais uma, tentando despertar empatia entre sionistas que pregam a barbárie.

Só que há uma diferença no ótimo filme de Kaouther Ben Hania - dos excelentes A Bela e Os Cães (2017) e O Homem Que Vendeu Sua Pele (2020) -, que é o enviado da Tunísia à categoria Filme Estrangeiro no Oscar desse ano e que está em cartaz nos cinemas. Aqui, a voz abafada, chorosa e suplicante que ouvimos do outro lado de telefone não é a de alguém interpretando. De uma criança fazendo de conta. A voz é a da Hind Rajab real, uma criança de seis anos que implora por ajuda durante horas, após um ataque das forças militares de Israel dizimar os corpos dos tios e dos primos da pequena (que estava em um carro em um espaço ocupado). Do outro lado da linha, Omar e Rana se revezam ao telefone para, na medida do possível tentar tranquilizar a menina, em meio a um cenário em que não há nada tranquilo. Bombas seguem explodindo no entorno. Os barulhos de tiros emergem do nada. Hind tenta se esconder ao mesmo tempo em que suplica aos socorristas: "por favor venham me buscar. Estou com medo. Eu imploro".

 


E, sinceramente, um filme como esse é um tapão na cara da nossa sociedade, que segue assistindo passivamente os atos violentos de Netanyahu e sua gangue, sob a desculpa de estar em busca de integrantes do movimento de resistência Hamas. Aliás, não é preciso ir muito longe para saber que os repetidos cessar fogo ou qualquer outro tipo de movimento no sentido de encerrar a guerra - como no caso da bizarra criação do tal Conselho de Paz, perpetrado pelo ditador dos Estados Unidos Donald Trump -, não passam de fachada. As mortes de civis seguem a rodo. Com dados como os da organização Save The Children revelando o pior: que talvez 20 mil crianças tenham sido assassinadas nos últimos anos. Muitos bebês. Não há distinção para quem propõe limpeza étnica. O desespero de Omar, relatado no começo dessa resenha não é por acaso. Ninguém se sensibilizará com uma criança aos prantos, pedindo clemência em meio aos destroços do que resta de um veículo. Ou do que resta da geografia de um País.

E como se esse conjunto todo não fosse absolutamente horroroso, o trio central de socorristas - Nisreen tenta equilibrar as coisas como a voz plácida de uma terapeuta - ainda precisa lidar com as burocracias simbolizadas em tela por Mahdi (Amer Hlehel), que é o responsável por enviar as ambulâncias aos locais dos chamados. O que só será possível após um longo período de negociações em que entidades como a Cruz Vermelha, secretarias de saúde e os governos dos países cheguem a algum acordo que autorize a ação. O angustiante mapa que insiste em ser exibido na tela, mostra que há uma ambulância a apenas oito minutos de distância de onde está Hind - junto a um posto de gasolina. Mas há os protocolos. As decisões não podem ser intempestivas, sob risco de os próprios socorristas serem bombardeados. Mesmo em uma ambulância identificada. A situação é tensa - com a angústia crescente parecendo longe do fim. Infelizmente a gente meio que já sabe como essa história acaba. E obras como essa podem ajudar a dar visibilidade para o tema - que segue urgentíssimo.

Nota: 8,5

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Cinema - Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I'd Kick You)

De: Mary Bronstein. Com Rose Byrne, Conan O'Brien, Danielle Macdonald e A$AP Rocky. Drama, EUA, 2025, 114 minutos.

Em uma das primeiras cenas de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I'd Kick You), a psicoterapeuta Linda (Rose Byrne, em papel que lhe deu uma indicação ao Oscar), está chegando em seu apartamento com a sua filha pequena. Linda pede à pequena que vá ao banheiro lavar as mãos para que possam comer a pizza que encomendaram, quando vem a surpresa: o apartamento está, inexplicavelmente, alagado. Pior do que isso, quando chega à sala para tentar verificar de onde vem o vazamento, o susto: o teto cede abrindo uma enorme cratera escura que une um andar ao outro. Um buraco imenso que servirá como uma espécie de alegoria permanente para uma mulher que se esforça para ser a melhor mãe, mas que nunca parece se considerar suficiente. O buraco em seu peito, metafórico, talvez represente algum tipo de vazio. Uma ausência. Uma sensação de dívida que não se sabe bem qual. Uma carga que faz com que ela chore para, ali adiante, seguir em frente.

Em linhas gerais a obra de estreia de Mary Bronstein é riquíssima em simbolismos que emergem em meio a sentimentos de culpa, de sonhos reprimidos e de inseguranças ligadas à maternidade. Na sociedade há uma cobrança para que uma mãe - que, importante que se diga, não deixou de ser também mulher - esteja inteira para o cumprimento de seu propósito. Mas e se ela estiver despedaçada, fragilizada, quem a acolhe? Um marido muitas vezes ausente? Uma rede de apoio quase inexistente? Um terapeuta que oferece seus serviços de forma excessivamente racional e com pouca empatia? Linda precisa tomar decisões complexas, como se mudar temporariamente para um motel decadente enquanto o reparo do apartamento acontece. Um reparo que demorará mais do que o necessário por conta de burocracias diversas e uma certa má vontade de empreiteiro. O buraco permanece. Como uma lembrança do caos que está instaurado.

 


E como se problema pouco não fosse bobagem, a pequena filha que nunca aparece fisicamente - apenas como uma voz em desespero alternando momentos de infantilidade de alta demanda (como quando deseja um hamster) com outros de temores legítimos de meninice (quando questiona a todo o momento se ela vai morrer, por qualquer que seja o motivo) - padece de uma severa doença, que faz com que ela necessite de alimentação por sonda. O que exige de Linda uma atenção permanente. Nos poucos instantes de "folga", quando a menina dorme, por exemplo, a protagonista tenta com algum esforço comprar uma simples garrafa de vinho - barrando na má vontade da atendente. Ou mesmo sendo socorrida pelo amigo terapeuta, vivo por Conan O'Brien. O marido conversa com ela apenas por ligações telefônicas espaçadas feitas de sabe-se lá onde. Sendo as demais interações feitas com pacientes e seus distúrbios irritantes, mesquinhos, dos quais nem sempre ela consegue prestar atenção completa.

Uma dessas pacientes é uma jovem mãe de nome Caroline (Danielle Macdonald) que toma uma atitude extrema que movimenta a narrativa - e que dialoga com os assuntos da obra. "Sou o tipo de pessoa que não deveria ser mãe", comenta Linda em certa altura, enquanto revela aquele que talvez seja o grande trauma de sua juventude. O buraco, aquele do apartamento, ganha outros contornos que quase levam a experiência para o campo do realismo fantástico depois da segunda metade, quando o sentimento de culpa se amplia. Ao cabo essa pode ser uma experiência meio dolorosa, ainda que bastante realista, e que trata com uma boa dose de franqueza o processo de romantização da maternidade. A terapia em grupo não funciona. O mesmo valendo para qualquer tentativa de relaxamento. Ou mesmo de flerte, como no caso das desajeitadas investidas do superintendente do motel James (A$AP Rocky). "Eu vou melhorar", balbucia ela à filha de forma quase comovente no ápice do sofrimento. É difícil ficar alheio.

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Cinema - Sorry, Baby

De: Eva Victor. Com Eva Victor, Naomi Ackie, Lucas Hedges, Louis Cancelmi e John Carroll Lynch. Drama / Comédia, EUA / França, 2025, 103 minutos.

"É preferível que você vá direto ao pronto atendimento quando isso acontecer. Certo, lembrarei disso da próxima vez". Talvez só o deboche para que se consiga encarar uma segunda violência, depois que ocorre a primeira. Ou vai ver nem ele. Na cena em que ocorre o diálogo acima, Agnes (Eva Victor, que também dirige), a protagonista do ótimo e impactante Sorry, Baby, está em um hospital para ser examinada, após ter sido estuprada pelo próprio professor. Frente a uma série de protocolos e burocracias que envolvem não apenas a exposição de algo bastante íntimo e traumático, mas também a necessidade de falar meio que o tempo todo sobre o assunto, a jovem parece meio que de saco cheio. Saco cheio de tudo. De não ver uma solução possível ou satisfatória para o seu caso, de ter de rememorar a situação, ou mesmo de ver a condescendência das pessoas - inclusive de outras mulheres, mais preocupadas com a preservação de certa imagem, do que por algum tipo de compensação mais justa.

Sorry, Baby é um filme de impacto, mas que discute o tema do abuso sexual num tom tão irônico, quanto naturalista. Aliás, a obra evidencia algo quase óbvio: a maioria dos casos desse tipo de violência ocorre com pessoas próximas, na maioria dos casos de confiança. No caso de Agnes, ela é uma professora de Artes de uma faculdade do interior da região de New England que, ainda no começo do filme, recebe a visita da amiga Lydie (Naomi Ackie), que está grávida. Aproveitando a estada da amiga, a dupla participa de um jantar meio desconfortável com alguns colegas que integram um programa de pós-graduação coordenado pelo professor Preston Decker (Louis Cancelmi). De modo aparentemente afetuoso, Decker elogia o trabalho de Agnes - ela está desenvolvendo uma tese sobre Virginia Woolf. Em um dia de estudos na casa do docente, a protagonista sai do local correndo. Aos prantos. Quem assiste já sabe o que aconteceu. Mesmo que tudo que se veja seja a fachada da casa do sujeito.

 

 


Quando descreve o ocorrido à Lydie - o que envolve as tentativas do professor de tocá-la de forma nada consensual -, ela chega até a ficar insegura sobre como falar. "Isso parece 'aquilo'" comenta ela num tom incrédulo. Na universidade, o conselho disciplinar oferece um suporte de fachada a alguém que inicia uma jornada que lhe deixará emocionalmente exausta. Em resumo, não há muito o que fazer já que, diante do cenário, Decker pediu desligamento da Instituição. Não há como formalizar uma denúncia. Pior, não há nada que necessariamente prove o ocorrido. E pra piorar mais ainda do que tudo, Agnes parece não ter a certeza tão absoluta de desejar, ao cabo, que o sujeito seja punido. Que sua reputação seja comprometida - o que diz muito sobre o sistema patriarcal que vivemos e o medo das vítimas, que são a ponta frágil em uma estrutura de poder. Isso sem falar os protocolos irritantes, como no caso das perguntas do médico ("ele ejaculou em você?").

Sim, isso pode parecer necessário, mas tudo soa ainda mais frio. A burocracia da coisa - da denúncia ao suporte médico e emocional -, tudo parece cansativo, exaustivo. De forma inteligente, a obra realiza idas e vindas no tempo, o que envolverá ainda a presença de outras figuras, como o vizinho Gavin (o sempre inexpressivo Lucas Hedges) e o carismático Pete (John Carroll Lynch), o proprietário de uma lancheria de beira de estrada, que socorre Agnes após uma severa crise de pânico. Um tanto desalentador, o filme evidencia o fato de não haver muita solução em um mundo em que coisas do tipo podem acontecer, inclusive de forma recorrente (o que é reforçado pela sequência em que a protagonista conversa com o bebê da amiga). Mas ainda há espaço pra esperança. Afinal, pode parecer um comportamento meio resignado pensar que a vida continua, em um cenário em que "aquilo" acontece. Em que feridas são abertas e dificilmente curadas. Mas esse talvez seja um filme de sobrevivência e de suavidade nesse mundo tão bruto.

Nota: 8,0 

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Cinema - Valor Sentimental (Affeksjonsverdi)

De: Joachim Trier. Com Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas. Drama, Dinamarca / Noruega / Alemanha / França / Reino Unido / Suécia, 2025, 133 minutos.

Existe uma cena pequena em Valor Sentimental (Affeksjonsverdi), que talvez dialogue diretamente com as ideias centrais do filme dirigido por Joachim Trier - do excelente A Pior Pessoa do Mundo (2021). Nela, durante um jantar, o veterano diretor de cinema Gustav Borg (Stellan Skarsgård) teoriza sobre a produção cultural nos tempos de hoje, tendo como argumento o fato de os artistas atuais serem excessivamente "pequeno burgueses". "Não se escreve 'Ulysses' levando um pirralho pro futebol, ou pagando o seguro do carro" - comenta o sujeito, no limite entre o pedantismo e o elitismo. "Um artista verdadeiro deve ser livre e deve permanecer livre", afirma, deixando em choque as suas duas filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas). Sim, a fala pode soar excessivamente pragmática, direta e até insensível - ainda mais saindo da boca de um senhor de mais de setenta anos, que é cobrado por ter sido, durante grande parte de sua existência, um pai ausente.

Para aqueles que se impactam com aquilo que é dito de forma bastante racional por Gustav, é preciso que se diga que, na mesma sequência, ele garante às filhas incrédulas que elas foram a melhor coisa que lhes aconteceu. Ainda que, como renomado diretor de cinema, ele tenha estado em qualquer outro lugar do que a sua casa. Aliás, é justamente a casa centenária da família, com suas rachaduras, marcas do tempo e até um certo afundamento no solo - numa metáfora bastante clara pra certa decadência do todo -, que é o ponto de encontro de todos ali depois que a mãe de Nora e Agnes e, portanto, a ex-esposa de Gustav, morre. A casa, que atravessa gerações, histórias e memórias - boas ou ruins - e que são evidenciadas em uma bela sequência inicial, pertence ao pai. Que, fugindo de qualquer lógica, resolve que quer utilizá-la como cenário para um próximo filme. Desejando contar com Nora, uma respeitada atriz de teatro, no elenco.

 


Não é uma equação simples de ser resolvida. Nora pode não ser tão famosa, mas tem seu trabalho - aliás, acaba de estrear uma série que parece ter ido bem junto à crítica. E abomina com todas as forças a ideia de trabalhar com Gustav, seu pai, que meio que é redescoberto pela crítica, após a realização de uma retrospectiva de sua obra, exibida na França - o que inclui a reapresentação de um filme sobre a Segunda Guerra, inspirado na história trágica de sua mãe. E mesmo com seu último projeto tendo sido lançado quinze anos atrás, o trabalho do diretor chama a atenção da jovem Rachel Kemp (Elle Fanning), uma atriz estadunidense da geração Tik Tok, que, por fim, é convidada por Gustav para protagonizar o filme que é recusado por Nora. Entre idas e vindas e diálogos cheios de ressentimentos, a obra se converte em uma experiência familiar complexa sobre um pai ausente que pode ter sido, em sua juventude, um espírito excessivamente livre. Ainda que pai. Ainda que nada perfeito. Ausente. Mas dedicado ao trabalho. O que também possibilitou a criação das filhas.

Em linhas gerais essa é uma obra que utiliza os ambientes apertados da casa da família para reforçar o sentimento de claustrofobia que guia a todos ali - ainda que haja, aqui e ali, espaços para respiro, especialmente na relação tanto de Nora quanto de Gustav com o pequeno filho de Agnes, Erik (Øyvind Hesjedal Loven). A metalinguagem do filme dentro de um filme, sobre uma mãe que se suicida - e que faria alusão à história da própria mãe de Gustav -, pode ser uma alegoria nem tão criativa assim a respeito de luto, memória e algum tipo de busca por conexão. E por mais simples e naturalista que tudo seja, o que é reforçado pela quase ausência de trilha e por uma fotografia acinzentada, de tintas melancólicas, o filme permite uma série de reflexões bastante humanas sobre escolhas, erros, acertos, sonhos que ficam pelo caminho, frustrações e outros temas. "Sou muito sensível e somos muito parecidos", garante Gustav à Nora, no mesmo jantar que cito no começo dessa resenha. Aqui parece que um espírito livre reconhece outro. E, para que ele vá adiante, talvez seja preciso deixar certas coisas pra trás.

Nota: 8,5


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Cinema - Foi Apenas Um Acidente (Yek Tasadef Sadeh)

De: Jafar Panahi. Com Vahid Mobasseri, Ebrahim Azizi, Mariam Afshari e Mohammad Ali Elyasmehr. Drama / Comédia, Irã / França / Luxemburgo, 2025, 103 minutos.

Quando a gente assiste a um filme como Foi Apenas Um Acidente (Yek Tasadef Sadeh), é meio que impossível não associá-lo à situação vivida pelo próprio diretor da obra, o iraniano Jafar Panahi. Perseguido pelo governo há quase duas décadas por atividades supostamente subversivas - com o seu cinema provocativo sendo veículo para críticas ao regime em vigor no País -, o realizador tem empreendido verdadeiros calvários para concluir cada um de seus projetos. E para tentar driblar a censura e as barreiras impostas pelos aiatolás e seu conservadorismo atroz. De histórias mirabolantes, como a do envio de uma cópia de Isso Não É Um Filme (2011), para o Festival de Cannes, em um pendrive escondido em um bolo, ao uso de metáforas e de metalinguagem em Sem Ursos (2022), suas produções têm sido um símbolo de resistência e de enfrentamento, enfim, um engenhoso exercício criativo em meio à proibição.

E talvez por isso, mesmo filmes que não pareçam assim tão inspiradores como este, que está em cartaz nas salas do Brasil e deverá ser figurinha certa na próxima edição do Oscar, faz com que passemos pano para as eventuais imperfeições. Afinal, frente a um cenário de ameaças - Panahi chegou a ser preso em 2022, passando sete meses encarcerado, sendo libertado após uma greve de fome -, uma obra que é uma alegoria para o medo e de como agir quando o algoz é confrontado, é, enfim, um ato de coragem. Na trama, o mecânico de automóveis Vahid (Vahid Mobasseri) é surpreendido pela chegada à oficina mecânica em que trabalha de um certo Eghbal (Ebrahim Azizi), sujeito que, no passado, teria lhe torturado por conta de diferenças étnicas em um flagrante caso de xenofobia. Vahid identifica o sujeito pelo barulho característico da perna mecânica de seu algoz, que perambula pelo ambiente acompanhado da esposa e da filha, após um acidente em que atropelam um cachorro.

 


Com medo e meio que sem saber direito o que fazer, Vahid resolve seguir Eghbal até a sua casa, encontrando o momento certo para abordá-lo, agredi-lo e conduzi-lo até uma isolada região desértica com o objetivo de enterrá-lo vivo. O ódio que carrega, resultado de uma sequência de humilhações vividas por ele, justificaria essa Lei de Talião improvisada (do "olho por olho, dente por dente?"). Em desespero, Eghbal garante haver um engano. Não tendo sido ele o carrasco que o manteve enclausurado - e Vahid não consegue ter certeza, porque tudo o que ele tem é o barulho da perna mecânica e a voz. Receoso de estar cometendo uma injustiça, ele desiste do seu intento, colocando o homem em um caixão à moda Festim Diabólico (1948), na intenção de descobrir se Eghbal é, de fato, quem é. O que resultará em um excêntrico road movie pelas ruas de Teerã, com a entrada em cena de outras figuras como a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari), a noiva Goli (Hadis Pakbaten) e Hamid (Mohammad Ali Elyasmehr), um empregado de uma farmácia local. Todos previamente flagelados (ou não) por Eghbal.

Em linhas gerais, o que a obra - que venceu a Palma de Ouro do mais recente Festival de Cannes - parece questionar por cada um de seus poros é como fazer, em um cenário de tantas diferenças políticas, sociais, culturais (ou de polarização), para simplesmente tolerar o outro. A sua existência. Claro que se um lado é o violento e age com raiva, truculência e intolerância, o outro também deveria agir assim? É por esse caminho que resolvemos os problemas e pacificamos uma sociedade? Em longos diálogos, o quinteto completado pelo noivo de Goli, Ali (Majid Panahi, filho do diretor) vai pra lá e pra cá tentando tomar algum tipo de decisão. Para Hamid é matar, enterrar e pronto. Para os demais, como no caso da própria Shiva que, claramente, só quer seguir em frente com a sua profissão, a dúvida pairando no ar parece ser uma barreira. 

 

 

Em meio a choques e pequenas colisões, o grupo passará por outros suplícios urbanos, como propinas policiais, subornos aleatórios, a turbulência do trânsito, o capitalismo tardio ostensivo, um carro que entra em pane e até uma inesperada gravidez, com as implicações doentias de uma sociedade patriarcal - e tão guiada pela religião. Árida, excêntrica, caótica e inacreditavelmente divertida, essa é uma obra que repete os temas usuais de Panahi, que permanentemente precisa driblar as restrições, para a construção de uma experiência fragmentada, que olha para os traumas coletivos do Irã sem apontar um vilão em específico, já que o problema está no todo. No tecido. Nas entranhas. Com vidas - trabalho, relacionamento, famílias - sendo afetadas. Todos os dias. Com a coletividade meio que em pane, confusa, sem saber como agir. E sendo atropelada sem nem perceber.

Nota: 7,5 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Cinema - Bugonia (Bugonia)

De: Yorgos Lanthimos. Com Emma Stone, Jesse Plemons e Aidan Delbis. Drama / Ficção Científica / Comédia, EUA / Canadá / Coréia do Sul / Irlanda / Reino Unidos, 2025, 118 minutos.

Teorias conspiratórias, crises climáticas, CEOs performáticos, tecnologia difusa, trabalho precarizado, incelismo cultural, distorção da realidade, corporações que vendem a doença e a cura, podcasts e opiniões sobre basicamente tudo. Vamos combinar que todo esse mal-estar contemporâneo, com suas divisões políticas, sociais e culturais, parece condensado nas irresistíveis cerca de duas horas de Bugonia (Bugonia). No novo filme de Yorgos Lanthimos - se você acompanha a carreira do diretor sabe que seu "método" é meio que o do estranhamento e o do choque - não parece haver mocinhos a quem possamos nos apegar ou mesmo torcer. Se por um lado o seboso Teddy (Jesse Plemons) parece um channer anárquico e alucinado que frequenta fóruns de internet em que doidinhos de bairro divagam sobre os mais aleatórios tipos de terraplanismo, por outro a empresária Michelle (Emma Stone) não fica atrás, com sua cultura corporativa de aparências e enriquecimento com base no sofrimento alheio.

Ao lado do primo autista Don (Aidan Delbis), Teddy elabora um audacioso plano: o de sequestrar Michelle, que ele acredita fielmente não apenas ser uma alienígena do galáxia de Andrômeda - numa clara alegoria sobre dominação - mas também a responsável direta por toda a dor causada a sua família. Teddy e Don são dois solitários que trabalham com apicultura e parecem ter genuíno apreço pelo meio ambiente, ao passo que Michelle é justamente uma das diretoras de um conglomerado farmacêutico de nome Auxolith, que fabrica inseticidas que, justamente, tem aniquilado as colmeias de abelhas. Uma ameaça, aliás, bastante real. Quando esses dois universos tão distintos colidem, o resultado é uma experiência provocativa que não alivia para as tragédias decorrentes do capitalismo, que parece não ter limites em sua sanha desenvolvimentista - mesmo que alguns fiquem pelo caminho -, nos fazendo também questionar se o caminho adotado pela dupla de abilolados representa é o ideal para a resolução dos problemas.

 


E, em alguma medida, creio que seja exatamente aí que o filme se torna mais profundo. Mais complexo. Ao mostrar que as pessoas podem ter nuances e traços distintos de personalidade. Afinal, seria muito cômodo e um tanto maniqueísta tornar Michelle a pobre sofredora sequestrada - meio como no caso do escritor de Louca Obsessão (1990) -, que está nas mãos de dois malucos do ancapistão que, se for preciso, vão praticar as piores torturas para alcançar seus objetivos, seja lá quais sejam exatamente. Tanto que antes de ela ser levada por Teddy e Don, já entendemos que ela é uma arrombada manipuladora, que se incomoda com a sua equipe ao gravar um vídeo institucional sobre diversidade (ela reclama do excesso do uso da palavra, o que parece deixar brecha pra outras interpretações), ao mesmo tempo em que soa como uma falsiane ao divulgar à nova política da empresa, que permite aos empregados saírem às 17h30. Mas desde que não haja pendências, claro! "Vocês decidem", sorri ela cativante, com seus olhos angulosos, que estampam uma série de capas de revistas do universo corporativo.

Com a mãe em coma - mais um efeito colateral das políticas literalmente tóxicas da Auxolith -, e uma fúria masculinista que vai no limite da metáfora, quando ele mesmo se aplica um medicamento redutor de libido, Teddy é retratado sim como o esquisitão de cabelos compridos, meio hippie sujo, meio troll de segunda categoria, mas que também parece ter sua parcela de razão ao evidenciar que o colapso ambiental global, se não for refreado, pode ser o símbolo do desastre futuro. À uma acuada Michelle, ele pede que retorne à Andrômeda. E simplesmente pare com essa devastação. O sentimento geral de paranoia decadente do mundo parece ampliado pela trilha sonora de cordas incômodas - cortesia do compositor Jerskin Fendrix, que deve ser nominado ao Oscar - e por um espírito bélico que escala, sem termos a certeza de onde tudo aquilo vai parar. O final, criticado por alguns, amado por outros (meu caso), é a cereja do bolo: seguimos disputando espaço, brigando (inclusive na internet) e tentando marcar posição, enquanto que manda no capital e toma as decisões nos aniquila pelas entranhas. Pode parecer meio niilista no geral. Até meio misantropo em alguns casos. Mas esse é o cinema de Lanthimos. Para o bom ou para o mal.

Nota: 8,5 

 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Novidades em Streaming - Belén: Uma História de Injustiça (Belén)

De: Dolores Fonzi. Com Dolores Fonzi, Camila Plaate, Julieta Cardinali e Laura Paredes. Drama / Policial, Argentina, 2015, 109 minutos.

"Em plena democracia em um hospital público Belén foi acusada, torturada e condenada na mesma noite.

Vamos combinar que, nos tempos políticos atuais, talvez não haja assunto mais divisivo do que o direito ao aborto. Se por um lado, a extrema direita fanatizada e de Bíblia debaixo do braço, quer, sob a desculpa da valorização incondicional da vida, obrigar até mesmo gestações resultantes de violências sexuais diversas - aliás, pouco importando se a vítima for uma adolescente ou, pior ainda, uma criança -, de outro, o campo progressista luta para que as mulheres possam ter meio que o básico. No caso o direito ao aborto minimamente em casos já previstos em lei - como em estupros ou aqueles que envolvem riscos médicos. A decisão, ao cabo deveria ser da dona do corpo - uma coisa tão óbvia que chega até a ser meio bizarro estar discutindo isso às portas de 2026. Esperávamos carros voadores nesse ano? Não, temos de brigar com a tal da bancada evangélica, preocupadíssima com os bebês - mas apenas quando eles estão nas barrigas das futuras mamães. Depois disso, que se explodam, né?

E é nesse contexto que entra Belén: Uma História de Injustiça (Belén) - o enviado ao Oscar 2026 pela Argentina, que está disponível na Amazon. Inspirado em eventos reais ocorridos em 2014, o filme de estreia na direção da atriz Dolores Fonzi narra o bizarro episódio ocorrido com a jovem Julieta (Camila Plaate) que, depois de dar entrada no hospital com fortes dores estomacais, é presa preventivamente, acusada de ter, deliberadamente, praticado um aborto. Levada pela polícia, ela aguarda durante dois anos por um julgamento pelo suposto crime de "homicídio agravado por parentesco" - tudo isso acontecendo após uma sequência revoltante em que policiais, como sempre investidos de certa síndrome do pequeno poder, invadem a ala hospitalar em que Julieta está, para lhe colocar algumas em plena maca do hospital. Sim, ela ainda está sangrando, com dor, agredida física e moralmente e está sendo presa. Sem provas, ainda por cima.

 


Após um salto no tempo entra em cena a destemida advogada Soledad Deza (a própria Dolores Fonzi), que promete auxiliar a garota, após descobrir que o caso teria uma série de incongruências - o que envolve a participação de uma defensora pública inescrupulosa, daquelas que prefere tomar decisões carregando uma cruz a tiracolo (e não a Constituição). Julieta está condenada a oito anos de prisão e o desenrolar da trama resultará em uma série de sequências de tribunal, com ótimos diálogos e um clima de tensão geral extremamente bem construído - que faz com que o espectador se conecte solidamente com a história. Em linhas gerais, o que a trama evidencia é que, quanto mais conservadora e provinciana for a cidade ou a região, mais complicado será evoluir em temas como este - e não demora para que a própria Deza passe a ser perseguida e intimidada, após seu nome chegar à imprensa (o que envolve uma participação em um programa sensacionalista e altamente cringe de TV, que tenta humilhá-la de todas as formas).

Nesse sentido e não por acaso, Julieta entra em uma espécie de conflito em relação ao fato de os motivos de sua prisão - que permanecem em sigilo -, chegarem à esfera pública, com movimentos coletivos ganhando força nas ruas e exigindo a anulação da sentença. E mesmo sofrendo uma grande injustiça ela teme represálias - como no caso do receio de que seus pais percam o emprego, ao descobrirem que sua filha teve um aborto. A sensação de certa desorientação, aliás, é ampliada com uma sequência de alucinações envolvendo sangue - como nas cenas do chuveiro (com a água funcionando como uma alegoria para a limpeza moral tão desejada). Sem ter vergonha de defender com clareza seu lado, mas sem soar excessivamente panfletária, Dolores consegue conferir complexidade às suas personagens. Ainda assim o que fica claro é que, mesmo em um cenário de democracia e de avanços sociais, políticos e culturais pontuais, esse é um tema que exige vigilância permanente para que não haja retrocessos. Especialmente frente à governos autoritários, ligados à extrema direita reacionária.

Nota: 8,0 

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Cinema - O Agente Secreto

De: Kleber Mendonça Filho. Com Wagner Moura, Tânia Maria, Carlos Francisco e Maria Fernanda Cândido. Drama / Policial, Brasil / França / Alemanha / Holanda, 2025, 159 minutos.

Muito provavelmente poucos filmes serão tão didáticos em evidenciar de que formas eram perseguidas pessoas que, não necessariamente, estavam conectadas ao aparato político em meio à ditadura militar, como no no ótimo O Agente Secreto - o enviado do Brasil ao Oscar, que está em cartaz no País. Professores, intelectuais, pesquisadores, jornalistas, artistas e muitos outros precisavam entrar em rota de fuga pelos motivos mais aleatórios - e que nem sempre estavam diretamente ligados ao confronto direto com os milicos ou às frentes de resistência ao regime. No caso de Marcelo (Wagner Moura), o protagonista da obra de Kleber Mendonça Filho (Aquarius, 2016 e Bacurau, 2019), ele é um professor universitário especializado em tecnologia que meio que precisa sumir do mapa - e da faculdade em que ele trabalha em São Paulo -, depois que um industriário mal intencionado (e que detém o dinheiro) se sente incomodado com aquele "comunista cabeludo", que ousou patentear uma pesquisa a respeito de baterias de lítio.

Aliás, a construção dessa tensão ambiental pode ser percebida já nas primeiras sequências da produção, quando Marcelo faz uma parada em um posto de gasolina nos arredores de Recife - um local um tanto ermo, ladeado por vastas lavouras de capim elefante -, sendo surpreendido pelo fato de, ali, no pátio do estabelecimento, jazer um corpo. "Está desde domingo aí e a polícia ainda não veio ver", resume o frentista, atribuindo a demora aos festejos de Carnaval. Quando uma patrulha da Polícia Rodoviária Federal finalmente aparece, não é para averiguar o cadáver. E sim o fusca amarelo dirigido por Marcelo. "Tu não carrega tóxico aí dentro, não, né?", inquire o agente da lei, que, investido da síndrome do pequeno poder, atua no sentido de intimidar o cidadão nesse modelo de minúsculas opressões. Marcelo claramente está desconfiado. Talvez até com medo. Os motivos compreenderemos mais tarde.

 


Em linhas gerais esse é mais um filme de fluidez lenta, que aposta nas sutilezas como forma de fortalecer os seus pontos. Não há aquele caso ostensivo de militares de botas, balas de borracha e cassetetes em punho, dispostos a levar sujeitos tidos como subversivos para cativeiros onde serão sistematicamente torturados. Aqui, Marcelo chega placidamente a uma espécie de comuna na capital pernambucana, na ideia de fugir da vigilância constante do tal Ghirotti (Luciano Chirolli), o odioso industriário da Eletrobrás que chega à universidade como convidado, mas que sai cagando regra de uma forma quase caricata, abusando de comentários preconceituosos, racistas e xenofóbicos. Recebido pela carismática Dona Sebastiana (a ótima Tânia Mara), Marcelo tentará reiniciar a vida naquele local quase idílico que abriga refugiados (na falta de outra palavra), arranjando um emprego improvisado em um órgão público meio decadente, enquanto tenta antecipar ao máximo a obtenção de um passaporte falso para ele, e para seu pequeno filho. O que pode ocorrer com um contato mais direto com figuras da resistência que circulam à sombra, como Elza (Maria Fernanda Cândido) e Arlindo (Tomás Aquino).

Nesses dias de estada no Recife, o protagonista estabelece um vínculo bastante fraterno com o seu sogro Alexandre (Carlos Francisco), pai da falecida Fátima (Alice Carvalho), que teria morrido de uma pneumonia mal curada (ainda que nunca seja possível ter certeza disso, já que descobriremos mais adiante que ela também foi alvo de perseguição da corja de Ghirotti). Em meio àqueles dias turbulentos do ano de 1977, a população recifense será impactada por um excêntrico episódio, que ocupará as manchetes dos jornais de forma recorrente: uma perna humana é encontrada no estômago de um tubarão que encalha (e morre) na orla. Ocorrência que, evidentemente, terá a ver com o misterioso sumiço de corpos, alvos de execução por milicianos ligados ao Estado - destino que poderá ser o do próprio Marcelo, se ele não conseguir empreender seu projeto de fuga do País. Com tudo piorando quando Ghirotti contrata dois capangas para persegui-lo.

 

 

Para além do roteiro em si, recheado de diálogos inteligentes e até bem humorados (principalmente aqueles que envolvem a Dona Sebastiana) - mesmo em um cenário de tensão -, o filme ainda merece elogios pela qualidade técnica, com um desenho de produção caprichoso, que recria absolutamente todo o cenário da época à perfeição (o que vai desde a arquitetura, passando pelos veículos, até chegar a objetos de decoração e figurinos). Há também um clima geral meio que de letargia do período. Uma espécie de nostalgia festiva de um Carnaval como alegoria da esperança, em um contexto político, social e econômico perto do colapso - e não deixa de ser interessante ver como o diretor une todos esses pontos de maneira quase lúdica, com instantes de devaneio que vão no limite do realismo fantástico (há uma cena com a "perna" que consegue ser assombrosa e engraçada em igual medida). O que é reforçado pela onipresença do cinema, com seus cartazes e reações do público à clássicos do terror como A Profecia (1977) ou Tubarão (1975), numa rima inevitável. A esperança e a dor se encontram em tempos de pirraça. Como numa música do Chico, tão trágica quanto envolvente.

Nota: 9,0

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Cinema - Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another)

De: Paul Thomas Anderson. Leonardo DiCaprio, Teyana Taylor, Sean Penn, Chase Infiniti e Benicio Del Toro. Ação / Policial / Comédia / Drama, EUA, 2025, 161 minutos.

Existe uma frase atribuída à Che Guevara que diz que "a revolução se faz através do homem, mas o homem tem de forjar, dia a dia, o seu espírito revolucionário". Em alguma medida e, em uma interpretação bastante livre, é possível afirmar que tal sentença resume bem o sentimento vivido por Pat Calhoun (Leonardo DiCaprio), personagem central de Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another), que está em cartaz nas cinemas do País. Ao cabo, a obra dirigida por Paul Thomas Anderson - um dos favoritos da casa - é uma experiência larga, grandiosa, que alterna momentos frenéticos de perseguição e de fugas espetaculares (tanto a pé, como em carros em movimento), com instantes um tanto intimistas, domésticos e reflexivos. Não apenas sobre os tempos em que vivemos - de ascensão de uma extrema direita a cada dia mais radical -, mas também da persistência quase romântica em não deixar os ideais revolucionários esmorecerem.

Porque em geral é muito cômodo aceitar o mundo em que vivemos. Com Bolsonaro, Trump, Netanyahu, supremacismo branco, nazismo da pós-modernidade, xenofobia, genocídios e instabilidade social generalizada. Mas como é possível acordar todas as manhãs, recolhendo todo o ânimo restante para que o ideal de um mundo melhor para as gerações futuras se perpetue? Como ir para além da paixão sanguínea e ideológica que move os movimentos de esquerda (ou progressistas) que lutam por justiça social e um maior equilíbrio entre quem está acima e abaixo da pirâmide? No primeiro terço da produção é meio que impossível não se comover com uma espécie de deleite amorosamente revolucionário. Aquela coisa de tesão e fúria, de sexo e bomba, de luta panfletária por liberdades em meio a tiros, gozo e tentativas espetaculares de driblar as forças militares que se instauram nas entranhas do poder. E que acham que podem determinar o futuro do cidadão comum, levando-se em conta sua raça, gênero ou cor da pele.

 


Pat e a parceira de crimes (e de cama) Perfídia Berverly Hills (a ótima Teyana Taylor) - como se fossem uma espécie de Bonnie and Clyde das trincheiras revolucionárias -, integram o coletivo French 75 que realiza, por baixo dos panos, uma série de ações que envolvem explosões com bombas, resgates mirabolantes de presos políticos, e ataques a rede elétrica, que visam a desestabilizar o governo tirânico e autoritário de extrema direita em vigor. E que tem no comandante Steven Lockjaw (Sean Penn, como se fosse um General Heleno do universo nem tão alternativo), o seu principal rosto. Aliás, rosto asqueroso como costuma ser o desses neofascistas que compensam algum tipo de ausência, com muito grito, muita arma empunhada, um tanto de cara feia e muita raiva de qualquer minoria. Negros, gays, imigrantes, quem quer que seja. E é por isso que ele fica absolutamente exasperado quando ele é humilhado por Perfídia, durante uma ação do grupo. Para mais tarde capturá-la, obrigando-a a fazer sexo com ele.

Perfídia, mais adiante, dá à luz à filha Charlene (Chase Infiniti), mas, incapaz de seguir uma vidinha de "bela, recatada e do lar", ela foge de casa para seguir os ideais da revolução, deixando a cargo de Pat a criação da pequena. Só que, em uma das ações do French 75 as coisas saem errado, Perfídia é presa, indo parar em uma espécie de Programa de Proteção de Testemunhas, que é conduzido pelo próprio Lockjaw, com seus trejeitos e tiques nervosos absurdamente irritantes. Um conjunto de situações que obrigará Pat e Charlene a fugirem, enquanto Perfídia também consegue escapar do seu asilo forçado - no caso, para o México. Um salto de 16 anos no tempo mostrará pai e filha vivendo agora com outra identidade (seus novos nomes são Bob e Willa), tentando tocar a vida em uma cidade santuário isolada. E, claro, como não poderia deixar de ser, a caçada em si ainda não terminou, especialmente após Lockjaw se tornar integrante de luxo de um grupo supremacista - o que faz com que Bob / Pat se torne a cada dia mais paranoico. Tendo no vício em drogas uma espécie de válvula de escape.

 

 

Com uma trilha sonora envolvente, de cordas e pianos cortantes que sobem e diminuem, mas que permanecem meio que o tempo todo - cortesia de Jonny Greenwood, do Radiohead -, e uma edição ágil, mas nunca confusa, Uma Batalha Após a Outra é uma aventura política quente, inspirada em um conto de Thomas Pynchon, e que dialoga, inevitavelmente, com o atual contexto político (ainda que Vineland, o texto de Pynchon, tenha sido escrito na esteira do governo do republicano Ronald Reagan). Por vezes exagerado, em outros momentos engraçado, mas o tempo todo hipnótico, esse é o tipo de produção que, as pessoas elogiam dizendo que "nem se vê às 2h40 passarem". Sim, isso pode ser um mérito, especialmente em uma obra bem costurada, ágil e que mantém a atenção do público. Claro que, no terço final, quando a perseguição parece não ter mais fim - depois da entrada em cena do professor de caratê de Willa, Sergio (Benicio Del Toro) -, a coisa pode dar uma certa cansada. Ainda mais quando meio que já compreendemos a mensagem que fica, no que diz respeito ao combate permanente de regimes autoritários. E da importância de nunca desmobilizar. 

Nota: 9,0 

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Cinema - Faça Ela Voltar (Bring Her Back)

De: Danny e Michael Philippou. Com Sally Hawkins, Billy Barratt, Jonah Wren Phillips e Sora Wong. Terror / Drama, Austrália / EUA, 2025, 104 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM SPOILERS] 

Da lenda egípcia de Osíris, passando por livros como Cemitério Maldito, de Stephen King, ou mesmo filmes como Hereditário (2018), de Ari Aster, não foram poucas as obras de arte que se ocuparam do tema dos mortos que "retornam" à vida. Ou de vivos que, diante de um contexto de luto, se empenharão em trazer de volta aqueles que tenham partido para uma melhor. Em muitos casos, essa acaba sendo uma boa desculpa para trabalhos que examinam traumas que emergem de cenários de perda, e quais os caminhos para a superação. No caso do recente Faça Ela Voltar (Bring Her Back) a coisa não parece assim tão profunda do ponto de vista psicológico - ainda que, aqui e ali, a obra dirigida pelos irmãos Danny e Michael Philippou espalhe alguns símbolos que nos ajudam a compreender as motivações de Laura (Sally Hawkins), a mãe enlutada que parece disposta a qualquer coisa pra trazer a falecida filha de volta à vida.

O filme inicia com uma experiência um tanto traumática para Andy (Billy Barratt) e sua meia-irmã, a jovem Piper (Sora Wong) - que tem um severo problema de visão que lhe permite ver apenas vultos e sombras -, que encontram o próprio pai morto, no chuveiro. Aparentemente ele tratava um câncer (ou não, vai saber). Após uma conversa com a assistente social, a dupla é enviada para morar com uma ex-conselheira da Instituição - seu nome é Laura (Sally Hawkins), uma excêntrica mãe também enlutada (ela perdeu a própria filha após um trágico afogamento, na piscina de casa) -, que também abriga um outro menino, no caso Oliver (o ótimo Jonah Wren Phillips). Oliver parece estranho e taciturno - seu olhar é fundo, meio denso, mas ao mesmo tempo disperso. O que combina com o cenário como um todo: uma casinha isolada no meio do nada, rodeada por uma floresta (um ethos inevitavelmente óbvio).

 

 

Como não poderia deixar de ser, tudo começa mais ou menos bem naquele ambiente. Andy estranha um pouco o carinho desmedido de Laura com Piper - talvez o fato de ela também ter perdido uma filha que, curiosamente, era cega. E tinha mais ou menos a mesma idade. A mesma altura, tudo. E, bom, não precisa ser nenhum adivinho para saber que, dali pra frente, coisas estranhas começarão a acontecer naquele ambiente. Especialmente por Laura, reiteradamente, colocar para rodar um vídeo que parece explicar uma espécie de ritual satânico, em que uma pessoa morta é trazida de volta à vida, com o uso de um hospedeiro (que meio que suga a alma do vivo, para depositá-la no morto, fazendo-o despertar). Sim, é tudo um tanto bizarro e a coisa vai escalando conforme a loucura de Laura (e de Oliver, que não compreendemos bem as motivações, inicialmente), avançam.

Em linhas gerais trata-se de uma obra tensa, sombria e que se utiliza, em alguma medida, do horror físico - que ficam evidenciadas nas impactantes transformações corporais de Oliver. Que sai de um menino que, de forma um tanto esquisita, resolve morder uma faca, até chegar em alguém que come mesas, objetos e a própria carne se for preciso. Tudo para saciar a fome de algo que parece estar parasitando, de forma oculta, seu pequeno corpo. Seu ser. Há no contexto uma ambiguidade sobre o que pode ter ocorrido, de fato, com a filha de Laura e isso nunca fica claro - sendo parte do mistério geral. Mas o caso é que trata-se de uma experiência que alterna momentos mais contemplativos, com outros um tanto movimentados e que traz o elementos sobrenatural como metáfora para a superação da dor. 

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Cinema - A Vida de Chuck (The Life of Chuck)

De: Mike Flanagan. Com Tom Hiddleston, Chiwetel Ejiofor, Mark Hamill, Karen Gillan e Jacob Tremblay. Drama / Fantasia, EUA, 2025, 111 minutos.

Uma jovem artista de rua toca bateria em uma esquina qualquer. As pessoas passam, não dão muita bola, seguem suas vidas. Aquilo que a gente meio que vê nas grandes cidades, cotidianamente. Até o momento em que um sujeito bem vestido - com um terno bem cortado -, de pasta na mão, cruza por ela. E, de forma inesperada, para. Para, ouve, começa a absorver aquele ritmo cadenciado e inicia uma dança. Que começa econômica, mas evolui de forma expansiva, chamando a atenção de outros. Uma outra mulher é convidada pelo homem a dançar com ele, se propondo a conduzi-la. O que formará um conjunto belo e envolvente, e que talvez dê conta do caráter aleatório da existência. A gente nunca sabe onde está exatamente a linha de chegada, quem deixará marcas em nossas vidas, quais memórias teremos. Ou mesmo dores, desejos, arrependimentos. É meio óbvio que tudo isso nos percorra. E ao mesmo tempo muito lindo como A Vida de Chuck (The Life of Chuck) lida com todas essas questões.

A etapa em que o homem dança com a mulher, ao som de uma baterista em um dia tranquilo faz parte do segundo ato da obra de Mike Flanagan, inspirada em um conto recente de Stephen King (aliás, uma das especialidades do realizador, adaptar obras do autor de livros de mistério). Esse segmento - seu título é Artistas de Rua Para Sempre -, é meio que fundamental para a compreensão daquelas que parecem ser algumas das ideias centrais da produção. A de que não somos absolutamente nada e ninguém "na fila do pão", mas que ao mesmo tempo somos capazes de coisas maravilhosas. Chuck (Tom Hiddleston na fase adulta), o homem que dança, é apenas um contador que deixou o sonho de ser artista pelo caminho. Mas que reaviva esse ideal, justamente no momento em que encontra Taylor (Taylor Gordon), a baterista. Chuck ainda não sabe, mas tem apenas nove meses de vida pela frente. Ou vai ver talvez ele saiba e sinta isso. E não queira desperdiçar nenhuma oportunidade.

 


Importante que se diga que nenhuma análise que se faça desse belo projeto poderá ser definitiva. Essa é uma obra bastante aberta e cheia de possibilidades de interpretação. Chuck é alguém que morre com apenas 39 anos e, quando o filme começa, no exato instante em que o ocaso de sua existência parece em curso, ao mesmo tempo o nosso planeta parece ir pelo mesmo caminho. No ato 3, chamado de Obrigado, Chuck - sim, a coisa vai de trás pra frente, tornando tudo mais formidável - temos o professor de Ensino Médio, Marty Anderson (Chiwetel Ejiofor). Que parece enfastiado com os rumos da educação, ao mesmo tempo em que se depara com o caos ambiental que se instala - com grandes tsunamis, queimadas, vulcões e crateras que afetam sua vida e os demais -, que resulta na queda da internet, na perda de serviços telefônicos, da luz e da esperança como um todo. Desesperado, ele tenta ir ao encontro de sua ex-esposa Felicia (Karen Gillan), enquanto tudo o que enxerga são placas, outdoors e mensagens oficiais na TV, saudando a existência de um certo Chuck. Que parece ser ao mesmo tempo o último meme, e algum tipo de esperança que conecta todos ali ao espaço material. 

Já na primeira parte, Eu Contenho Multidões, viajaremos para infância e para a juventude de Chuck, com suas memórias embotadas pela perda precoce dos pais em um acidente de carro, com ele sendo criado pela afável avó Sarah (Mia Sara) - que é quem estimula o protagonista a dançar - e pelo taciturno avô Albie (Mark Hamill), que se torna alcoólatra após a perda do filho. Na casa dos avós, permanece um mistério que envolve um quarto no sótão: a recomendação é de que ele nunca seja aberto. Sob hipótese alguma. Na juventude, os dissabores e as complexidades do crescer, com suas paixões gerais e incertezas, colidem com certo idealismo capaz de superar fantasmas literais, ou reais, que rondam a vida do menino. Fantasioso, eventualmente onírico, repleto de simbolismos e de metáforas sobre dor, perdas, memória, luto e amadurecimento e futuro, essa é uma das grandes obras da temporada e que nunca se fecha simplesmente, quando sobem os créditos. Somos uma partícula minúscula dentro da teoria do Calendário Cósmico - nos lembra o professor Marty em certa altura. E ainda assim, repletos de vida, de contradições e de experiências extraordinárias. 

Nota: 9,0 

 

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Cinema - Amores Materialistas (Materialists)

De: Celine Song. Com Dakota Johnson, Pedro Pascal, Chris Evans e Zoe Winters. Drama / Romance, EUA / Finlândia, 2025, 116 minutos.

Vamos combinar que parte do magnetismo do cinema de Celine Song talvez esteja em sua capacidade de subverter pequenas lógicas. Ainda mais quando o assunto é o cinema e as expectativas criadas em relação ao que assistimos. No ótimo e elogiado Vidas Passadas (2023), por exemplo, ela brincou com as expectativas relacionadas ao primeiro amor. Do que poderia ter sido e nunca foi. E de como essas memórias ligadas às nossas paixões juvenis, muitas vezes podem surgir como um borrão idealizado. Como uma fantasia romantizada de uma outra época e que, verdade seja dita, muito provavelmente não existe mais. Afinal de contas as pessoas mudam e, que bom que é assim. Em seu novo projeto, Amores Materislistas (Materialists), a realizadora traz de volta um ethos meio batido, mas que costuma render em comédias românticas ou dramas de época: o casamento deve ser por amor ou por dinheiro?

Sim, a gente já viu essa história milhares de vezes e em tempos tão individualistas e de apelo à certas tradições o assunto parece receber uma injeção de oxigênio. Na trama, Dakota Johnson é Lucy, uma profissional que trabalha como casamenteira - meio que como um Tinder em forma de ser humano, que planilha candidatos solteiros, faz um levantamento de suas preferências em termos de idade, altura e condição financeira e tenta unir possíveis almas gêmeas. Um negócio que parece ser lucrativo junto à burguesia de Nova York, tanto que ela está prestes a celebrar a nona união entre pombinhos que não se conheciam e que agora estão prestes a seguir para o altar. E é justamente durante a festa de casamento de sua mais recente cliente, que ela conhece o charmosíssimo e elegante Harry (Pedro Pascal), um sujeito agradável que, nas impressões da profissional, é uma espécie de pão quente para os seus negócios. Solteiro, bem resolvido, com grana, é garantia de sucesso com suas clientes mais exaustas de tudo.

 


Só que, como nas tradições que envolvem obras do gênero, Harry não parece interessado em alguma das mulheres do catálogo de Lucy. O que ele deseja é a própria, com quem ensaia uma dança sensual que vai quase para além do simbólico. E como as coisas não costumam ser assim tão óbvias, há na vida de Lucy um terceiro integrante: no caso o garçom John (Chris Evans), um ator em meio período que luta para vencer na vida, enquanto as dívidas se acumulam (e as frustrações também). Por trafegar em um ambiente de tanta pompa e elegância, Lucy parece desejar ser parte daquele contexto de eventos chiques, gastronomia farta e bebidas sofisticadas. Harry, por mais que Lucy negue, tem o potencial para oferecer isso. Ao passo que o esforçado John, em meio ao desespero de um amor que nunca se resolve financeiramente, aparecerá em flashbacks bastante francos, encarnando o ex quebrado que calcula até os centavos na hora de oferecer um almoço de aniversário à protagonista ("não é que eu te odeie por ser pobre, mas nesse momento te odeio justamente por isso", afirma Lucy com uma franqueza atroz).

Para quem acredita que o amor possa superar todas as adversidades, inclusive as que envolvem a falta de dinheiro, a honestidade com que Lucy lê o mundo pode ser quase dolorida (ainda que a obra de Song possa preparar, aqui e ali, as suas ciladas). "Casamento é um negócio e sempre foi assim", "o jeito que você paga a conta de desconcerta", "um dia, sem motivo algum, vocês vão passar a se odiar, parar de fazer sexo, se trair", são algumas das frases práticas e quase niilistas que a protagonista desferirá com uma honestidade assombrosa, em meio a cenários luxuosos e que reforçam o prazer intelectual que é assistir pessoas tão bonitas, com discursos tão ambíguos e realistas, mas que denotam de forma vibrante a complexidade dos relacionamentos, com suas frustrações, vulnerabilidades, medos e incertezas. É, ao cabo, uma obra gostosa de ver e talvez não tão completa como Vidas Passadas. Mas tem uma beleza que foge daquele escopo óbvio de começo, meio e fim redondinho de comédia romântica mais previsível. Ainda que não seja necessariamente surpreendente. Ah, detalhe que não pode passar batido: a trilha sonora de nomes como The Ronettes, Cat Power, Harry Nilsson e Françoise Hardy é a cereja do bolo.

Nota: 8,0 

 

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Cinema - Filhos (Vogter)

De: Gustav Möller. Com Sidse Babett Knudsen, Sebastian Bull Sarning e Dar Salim. Drama, Dinamarca / Suécia, 2024, 94 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

Existe um filme alternativo dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne chamado O Filho (2001) que, de forma muito resumida, conta a história de um carpinteiro enlutado, que resolve contratar justamente o assassino do próprio filho, em um programa de ressocialização de adolescentes que ele participa. É uma experiência áspera e complexa, mas que acena com esperança para um mundo em que a violência e o "olho por olho, dente por dente" parecem reger os códigos atuais da sociedade. E, enquanto assistia ao excelente Filhos (Vogter), projeto dinamarquês que está em cartaz nos cinemas, foi meio inevitável não pensar na obra dos Dardenne. Não apenas pelas semelhanças na história, mas também pelo estilo econômico, cheio de sutilezas e de silêncios que falam muito, adotado por Gustav Möller, que é diretor do ótimo Culpa (2018).

Na trama, Eva (Sidse Babett Knudsen) é uma agente carcerária que parece ter uma retidão moral incorrigível. Só pelos seus modos com os presos - sempre educada, preocupada em resolver problemas pequenos ou grandes (como as filas para o banho ou uma boa condução das aulas de matemática ou de ioga) - é possível perceber que ela é alguém que acredita, de fato, no potencial regenerativo do sistema. Especialmente quando o assunto são os criminosos que cumprem penas mais leves. Só que a coisa muda de figura quando ela nota a chegada de um misterioso preso a uma ala em que estão infratores envolvidos em crimes mais sérios. O que é justamente o caso de Mikkel (Sebastian Bull Sarning), que é acusado de ter assassinado um outro preso por motivos fúteis (como saberemos mais adiante). Há, tem também um outro detalhezinho importante, nada de mais: o jovem morto é o filho de Eva.

 


Claro que não é preciso ser nenhum gênio pra perceber que há caroço nesse angu. Quando Mikkel chega, Eva trata logo de mexer os pauzinhos para que ela seja deslocada justamente para a ala onde está o rapaz. Mesmo sendo alertado por Rami (Dar Salim), o chefe do departamento, dos riscos que ela corre no local. Os olhares demorados da agente, a sua paciência comovente em observá-lo à distância e a sua disposição em confrontá-lo nos assuntos mais minúsculos possíveis (como no momento em que ela lhe nega um maço de cigarros), acirrarão os ânimos e facilitarão a compreensão daquele contexto por parte do espectador. Especialmente para aqueles que já estão acostumados a esse tipo de gramática fílmica, de obras repletas de ambiguidades e de se soluções nunca óbvias. Com os próprios traumas e segredos do passado de Eva, servindo como um inesperado combustível jogado sobre o fogo.

De tensão crescente, o projeto é daqueles que vão escalando aos poucos - o que é reforçado por uma certa claustrofobia que rege o todo. Seja nos cubículos apertados ou nos corredores sufocantes, em que não há nenhuma janela, em que a luz mal se vê. Assim como no caso de Olivier, o protagonista de O Filho, que não parece muito bem saber o que fazer com o jovem, após contratá-lo - ainda que o espectro da vingança ronde sua mente meio que o tempo todo -, aqui temos também uma agente penitenciária que promove uma luta interna muito maior do que aquela contra um sistema supostamente injusto. Em certa altura, após uma confusão na cela de Mikkel, Rami argumenta com Eva, lembrando-a que ele permaneceu uma semana de castigo na solitária. O que mais pode ser feito, afinal? Talvez haja pessoas que "não possam ser salvas", lembra o mesmo Rami. A frase de múltiplos significados, é daquelas que bate forte. Ficando conosco quando os créditos sobem.

Nota: 8,5

 

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Cinema - A História de Souleymane (L'histoire de Souleymane)

De: Boris Lojkine. Com Abou Sangare, Nina Meurisse e Mamadou Barry. Drama, França, 2024, 93 minutos.

[ATENÇÃO: ESSE TEXTO TEM SPOILERS] 

"Qual é a sua história? A sua história de verdade?". É quase no momento final de A História de Souleymane (L'histoire de Souleymane), que o protagonista do premiado filme de Boris Lojkine é instigado por uma agente que dá assistência a refugiados para que ele pare de mentir. E seja honesto com aquilo que está passando, está vivendo. E desafio qualquer espectador que assiste a essa pequena joia do cinema alternativo a não se debulhar em lágrimas naquele instante. Segurando o choro - e com a cabeça baixa, claramente envergonhado de tudo (da violência que sofre em um País estrangeiro, das dificuldades em ser reconhecido como cidadão, do trabalho precarizado que lhe fornece o mínimo), Souleymane (Abou Sangare, em performance impressionante) desaba. "Minha mãe me deu a vida. E eu só queria poder devolver a ela alguma dignidade", explica o rapaz em frente a consternada funcionária.

Vamos combinar que em tempos de perseguição à imigrantes, de xenofobia, de ódio e de intolerância, uma produção como esta parece se tornar ainda mais impactante. Ainda mais potente. Por menor que seja o microcosmo apresentado. Souleymane é um imigrante da Guiné, uma das tantas colônias francesas. Ele está em Paris para tentar uma vida melhor para a sua família. Sua mãe acabou saindo de casa após problemas psicológicos. O rapaz queria fazer algo que lhe permitisse alguma dignidade. Algo que lhe fizesse bem, como descobrimos no momento decisivo do filme. Em Paris ele tenta a vida como entregador de comida para uma plataforma estilo IFood. Vai pra lá e pra cá de bicicleta, sujeito a todos os tipos de situações complicadas, entrecortando as ruas, evitando (ou não) possíveis acidentes com os carros e seus motoristas desatentos. Tendo de confrontar ainda clientes mal humorados ou mal educados mesmo. Insensíveis. E mesmo gerentes de restaurantes atrapalhados.

 


No transcorrer da obra a gente vai percebendo que Souleymane é um sujeito que, juridicamente, está ilegal na capital francesa. Pra conseguir os documentos ele tem de pagar uma grana forte em uma espécie de mercado paralelo com pessoas que ele não sabe bem se pode, de fato, confiar - imigrantes como ele, que estão há mais tempo por lá. Para trabalhar, precisa pedir emprestado o nome de uma outra pessoa - um empregado de uma loja local -, para poder operar por baixo dos panos. Há um instante em que ele leva um pacote de comida para um grupo de policiais, que ocupa uma rua escurecida. O medo parece ser iminente - e a gente torce para que ele consiga escapar dali sem nenhuma violência física ou psicológica. Ou qualquer trauma a mais em sua vida. Com o dinheiro em mãos. É tudo tenso e urgente em uma bicicleta que simplesmente não para, com a câmera colada a ela. Em alguns momentos até parece que estamos em um documentário sobre trabalhadores precarizados vulneráveis.

Os poucos momentos de sossego do protagonista envolvem encontros fortuitos e esporádicos com outros refugiados que circulam alucinadamente pela cidade, também em suas bicicletas. É com eles que ele conversa amenidades, pequenas bobagens, assuntos futebolísticos, ou a respeito de clientes gostosas que passaram por eles durante o dia. São pessoas, como quaisquer outras, com virtudes, defeitos, medos e sonhos. A ideia de conseguir se estabelecer na França envolve um plano de fuga da Guiné, por supostas perseguições políticas. O interlocutor que atende os imigrantes junto a assistência social, garante que o relatório fictício pode dar bom resultado. Só que as coisas são mais complexas do que aparentam. Mais cruas, doloridas e verdadeiras. Souleymane quer a proteção do governo francês para que tenha o mínimo. Para poder trabalhar. Deixa pra trás sua família, o amor da sua vida, para sobreviver em pátria estrangeira, que não a sua. Longe de casa, de tudo. O ápice do filme nem seria necessário para que nos compadecêssemos. Mas ele serve como a cereja do bolo de uma experiência dolorida, desalentadora, mas que preserva uma pontinha de esperança.

Nota: 8,5 

 

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Cinema - Cloud: Nuvem de Vingança (Cloud)

De: Kiyoshi Kurosawa.Com Masaki Suda, Daiken Okudaira, Masataka Kubota e Kotone Furukawa. Suspense / Drama / Ação, Japão, 2024, 124 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor Kiyoshi Kurosawa sabe que seus filmes podem até ter um caráter mais experimental, ainda que, em muitos casos, sejam apenas um veículo para o exame de questões um tanto mundanas. Em clássicos cult como Pulse (2001), uma história de terror abstrato, com assombrações que aparecem e somem por meio de um computador depois que um suicídio acontece, parece haver apenas uma análise desse mal estar proveniente do uso da tecnologia que, verdade seja dita, apenas escalaria nas décadas seguintes. Nesse sentido, talvez não seja por acaso que projetos como o recente Cloud: Nuvem de Vingança (Cloud) bebam na mesma fonte temática. Aqui, o aparato tecnológico já evoluiu. Até chegar onde estamos atualmente: em uma sociedade adoentada, individualista, niilista e violenta, com o ambiente online sendo apenas o meio para a exacerbação do ódio.

Na trama, Ryosuke Yoshii (Masaki Suda) é um tipo de picareta que adquire produtos no mercado paralelo - em muitos casos itens falsos, como bolsas; ou de colecionador, como bonecas da cultura pop -, para revendê-los na internet. Na primeira cena da obra, ele está barganhando com um casal de idosos a compra de aparelhos terapêuticos supostamente milagrosos (uma mercadoria que parece ter sido roubada). Após levar pra casa - seu depósito improvisado - 30 desses equipamentos por três mil ienes cada, ele os revende pela bagatela de 200 mil ienes online. Um dinheiro fácil e que chega até ele com muito mais velocidade do que aquele que ele obtém como um modesto empregado da indústria têxtil. Tanto é que, por mais que seu chefe insista na ideia de promovê-lo para que ele permaneça no local (ele parece ter o perfil ideal para chefiar), ele se recusa. Pede as contas. E passa a investir ainda mais fortemente no comércio online.

 


E, bom, como não poderia deixar de ser, não demora para que os negócios, que parecem estar indo de vento em popa - com direito até mesmo a compra de uma casa mais espaçosa (e afastada) para uma melhor organização logística, a sombra de tudo - desandem. Especialmente após um grupo de pessoas que se sente lesada, formar uma espécie de milícia digital com o objetivo de fazer com que Yoshii, que mantém nas suas redes o nome falso de Ratel, seja devidamente punido. Em linhas gerais, o que Kurosawa pretende evidenciar nessa escalada de violência que parece meio inevitável é que, nesse ecossistema moderno em que todo o mundo se acha mais esperto que o outro (em tempos de Tigrinho, de jogos digitais e de promessas de grana fácil), não há mocinhos. Movendo-se pelas sombras, pelas bordas, o protagonista sente a ameaça chegar não se sabe exatamente de onde. Mas ela está prometida. Na janela quebrada, na sensação de ser observado ou em um simples arame esticado na rua.

Hábil nessa construção das sensações como parte da experiência - a gente sabe o tempo todo que as coisas podem ficar ruins, seja pelo uso das sombras ou da fotografia que parece mais escurecida do que o normal -, o realizador converte o filme em um espetáculo selvagem no terço final, com uma perseguição digna dos melhores filmes de ação. Em tese pode parecer uma solução meio óbvia e que acaba contrastando com a ambientação mais sofisticada, de pesadelo onírico da hora inicial. Mas parece ser o ideal para evidenciar o fato de que ninguém está livre do ódio online (especialmente quando ele deixa de ser um mero xingamento em uma rede social). Os tempos de hoje são brutos. Preconceito, intolerância, extremismo, autoritarismo, vigilância, medo. Pulse parecia apenas um ensaio sobrenatural do tipo de tensão que seria mostrado em Cloud. E quando a ficha cai a respeito do absurdo de tudo aquilo - com pessoas desumanizadas e reduzidas a nada -, não há choro que resolva.

Nota: 8,0 

 

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Cinema - Vermiglio: A Noiva da Montanha (Vermiglio)

De: Maura Delpero. Com Martina Scrinzi, Giuseppe De Domenico, Tommaso Ragno e Rachele Potrich. Drama, Itália / França / Bélgica, 2024, 119 minutos.

Guerras, fanatismo religioso, patriarcado, autoritarismo. Vamos combinar que essa trinca pode até parecer um resumo do mundo em 2025, mas não. No caso de Vermiglio: A Noiva da Montanha (Vermiglio), filme da diretora Maura Delpero que estreia nesta semana nos cinemas, trata-se apenas da Itália nos anos 40. O cenário é uma remota (e gelada) aldeia nas montanhas onde uma numerosa família se ocupa de atividades cotidianas típicas do meio rural - tirar leite das vacas, juntar lenha, buscar água no poço. É aquela rotina que até hoje vemos em pequenas comunidades do campo, que possuem sua própria lógica de funcionamento, enquanto lá fora, à uma certa distância, o mundo acontece. Só que tem vezes que esse universo meio paralelo encontra uma brecha que perturba aquele dia a dia ordinário - e que, aqui, é representado pela chegada inesperada de Pietro (Giuseppe De Domenico), um jovem e taciturno soldado, que está em fuga da guerra.

Da forma como a narrativa é construída, em estilo fragmentado - os silêncios são inúmeros, bem como os longos planos em que a ação ocorre ao fundo, de forma quase abstrata, enquanto a neve oprime - caberá ao espectador ir meio que montando o quebra-cabeças daquilo que se acompanha. Ao chegar no local, Pietro é saudado pela família de Cesare (Tommaso Ragno), um sisudo professor local, por ter salvo Attilio (Santiago Fondevila), carregando-os nos ombros diretamente do front. O ato heroico ganha tração no povoado - para muitos uma atitude digna. Já para outros, parece haver certa vergonha no ato de desertar. "Talvez se todos fossem covardes não haveria mais guerra" comenta alguém em certa altura. Para a jovem Lucia (Martina Scrinzi), uma das filhas de Cesare, há um outro interesse, que pode ser percebido em seus olhares claudicantes: ela se apaixona por Pietro.

 


Em linhas gerais essa poderia ser uma história mais ou menos simples sobre o amor nos tempos de guerra - e sobre como tudo pode ser mais complexo do que, de fato, é, em tempos brutos. Mas o filme de Delpero, que é inspirado nas memórias da juventude da realizadora, guarda um espaço interessante para, de forma sofisticada e sutil, discutir uma série de temas que seguem mais do que relevantes nos dias atuais. Irmã de Lucia, a adolescente Ada (Rachele Potrich) claramente sofre por jamais poder verbalizar o seu amor pela amiga Virginia (Carlotta Gamba) - o que seria um escândalo em um espaço tão conservador e misógino em que as expectativas sobre as mulheres recaem apenas em um projeto: o de servirem de depósito de filhos para os seus maridos (sim, duro, mas real). A própria Ada, assim que conclui seus estudos, ouve de Cesare uma sentença dita com um naturalismo sufocante: "sua trajetória escolar termina aqui". Isso depois de ter sido aprovada em disciplinas, como, Economia Doméstica.

A própria Adele (Roberta Rovelli), esposa de Cesare, sequer tem tempo de ser efetivamente consolada quando um de seus filhos simplesmente morre. Já há mais um na barriga - o décimo, que deve nascer em breve. E por mais respeitado que Cesare possa ser por seus pares a sua incorrigível rigidez se apresenta como uma de suas tantas falhas, como no caso do episódio da aquisição dos discos de Vivaldi (e as quatro estações que fluem de forma inexorável soam apenas trágicas quando percebemos que as mulheres não têm nenhum poder de decisão sobre questões financeiras). Triste, gélido, surpreendente (especialmente no terço final) e contemplativo, esse é aquele tipo de projeto que nem sempre é fácil. Há uma ambientação vagarosa, de trilha sonora mínima e uma dinâmica de filmagem pouco convencional e de quadros demorados. Mas o que fica dessa obra que foi a enviada da Itália ao Oscar desse ano, são as mensagens das entrelinhas, como no momento em que Ada revela à sua irmã Flavia (Anna Thaler), os motivos pelos quais gostaria de ser padre. "Para poder aplicar penitências?", pergunta a pequena. "Não. Para poder ser ouvida sem ser interrompida". Uma das tantas lições.

Nota: 8,0

 

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Cinema - Três Amigas (Trois Amies)

De: Emmanuel Mouret. Com India Hair, Camille Cottin, Sara Forestier e Damien Bonnard. Comédia / Romance, França, 2024, 117 minutos.

[ATENÇÃO: TEXTO COM ALGUNS SPOILERS] 

"E se meu coração não tivesse mudado?". 

Vamos combinar que não há nenhuma grande novidade no que diz respeito à análise das complexidades que envolvem as paixões, em Três Irmãs (Trois Amies). Sim, amar não é uma ciência exata, cartesiana e muitos filmes já trataram disso com maestria. Só que essa obra aqui tem carisma de sobra pra segurar o espectador, ou pra nos envolver em alguma medida. Ao cabo há um charme meio torto no todo - especialmente quando descobrimos o segredo eventualmente machadiano, que envolve o narrador da história. Sim, o filme é sobre três amigas e suas andanças, mas o ponto de ligação de tudo é o professor Victor (Vincent Macaigne), que está devastado após a sua amada Joan (India Hair) revelar a ele que não o ama mais. Simplesmente meio que acabou a paixão e ela não sabe muito bem como lidar. Victor é carinhoso, devoto, verbaliza o quanto gosta dela, da família que construíram, da convivência. Mas não basta.

E, muito provavelmente, vocês que leem essas poucas linhas já sabem disso: não há lógica. Se houvesse uma espécie de equipamento de medida do quão apaixonados estamos por nossos pares, ele certamente variaria de um dia para o outro, de uma semana para a outra. Se alteraria com a passagem do tempo, a chegada dos filhos, a rotina. Somos seres de personalidade labiríntica, que respondem a estímulos variados no cotidiano. Joan, que leciona na mesma escola de Victor, garante à amiga Alice (Camille Cottin) que ela não deixou de gostar do marido. Ela tem apreço por ele. Que parece, de fato, alguém generoso, carinhoso. Mas como a gente lida quando aquele brilho, ou aquela admiração parece nos escapar? Lida, sei lá, vivendo talvez. Joan revela ao marido os seus dilemas e uma tragédia acaba ocorrendo, com ela se culpando. Uma sensação que só começa a se dissipar com a presença do docente que justamente substitui seu ex no educandário - seu nome é Thomas (Damien Bonnard).

 


Aliás, não demora para que percebamos que Thomas está caidinho de paixões por Joan - ele a apoia em seu luto e respeita o seu tempo de depuração. Ela não parece estar interessada em um relacionamento agora. Quer dizer, ao menos até o surgimento de Martin (Mathieu Metral), um colega de Thomas que surge para dividir o apartamento com ele. Mais impetuoso do que o companheiro, Martin tem a ousadia de se aproximar de Joan que cede. Aquela coisa de não estar preparada pra um novo relacionamento, cai por terra. E a gente sabe: esse papo só cola porque a pessoa "certa" ainda não pintou. E até aqui você já percebeu que a narrativa parece percorrer uma lógica que lembra o poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade (aquele do João que amava Teresa, que amava Raimundo e por aí vai). E é mais ou menos isso que vai se descortinando, com cada qual respondendo de forma nem sempre esperada.

Sobre Alice, bom lembrar que ela parece ter um relacionamento perfeito adequado (não exatamente fervoroso) com Éric (Gregoire Ludig). Mas as aparências enganam, já que o sujeito está, justamente, tendo um caso com a terceira amiga desse triângulo nada óbvio - seu nome é Rebecca (Sara Forestier). Sem que a amiga saiba, claro. Para os mais puristas ou conservadores, a naturalidade com que as traições, as trocas de casais e as mentiras acontecem podem incomodar. Ninguém é muito afeito a monogamia ali e, de certa forma, isso também pode evidenciar, do ponto de vista alegórico, o quão perdidos parecem os millenials, em meio a filhos que já cresceram (ou não existem), relacionamento mais longos que começam a se despedaçar sem muita explicação ou as exigências do mercado que também nos consomem. É um filme interessante, agridoce e leve. 

Nota: 7,5

 

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Cinema - Pequenas Coisas Como Estas (Small Things Like These)

De: Tim Mielants. Com Cillian Murphy, Emily Watson, Eileen Walsh e Zara Devlin. Drama, Irlanda / Bélgica / EUA, 2024, 98 minutos.

Não são poucas as cenas em que assistimos Bill Furlong (Cillian Murphy), o protagonista de Pequenas Coisas Como Estas (Small Things Like These), lavando freneticamente as mãos. É algo que faz total sentido, já que o sujeito é um comerciante de carvão do interior da Irlanda que, ao final de mais um dia de trabalho, tem como ritual sagrado essa higienização. Só que, para além do sentido de se limpar antes de ir ao encontro da família, parece haver ali, naquele esfregar que parece evoluir de maneira sôfrega, uma alegoria a respeito da tentativa de se livrar de um outro tipo de sujeira. Algo que vai ficando claro - por mais sutil que tudo seja - conforme a narrativa se desenrola e de como entendemos, em alguma medida, os traumas de Bill do passado. Especialmente aqueles que envolvem o complexo relacionamento com a sua mãe. Entre memórias dolorosas que vêm e vão, o homem parece considerar a possibilidade de, no presente, minimizar esse sofrimento.

Claro que nem tudo será fácil. Ao menos não de maneira óbvia - ainda mais quando percebemos qual a ponta forte nesse jogo de poder entre um trabalhador e as instituições religiosas que operam na pequena New Ross. O ano é 1985 e o Natal se aproxima. Bill tem uma série de entregas de cargas de carvão, já que o frio parece crescer de maneira palpável - e em obras do tipo, não deixa de impressionar como as paisagens enevoadas, as estradas cinzentas e o céu sempre nublado, parecem contribuir para uma espécie de melancolia onipresente, que se espalha para além da trama. Para as bordas, para os limites. Que tornam tudo mais desolador. E tenso. Ainda que essa tensão, esse medo, não fique exatamente claro. Há um tipo de horror que parece incrustado naquela rotina - e que parece rondar a vida um tanto simplória do protagonista, um homem bem casado, com a amorosa Eileen (Eileen Walsh) e pai de cinco filhas.

 

 


Em certa altura, Bill faz uma entrega em um convento local - um espaço taciturno, fechado, pouco convidativo. Enquanto está no galpão despejando os sacos de carvão, consegue espionar uma jovem sendo entregue à força no local. Ela implora aos gritos para não ficar ali. Chama por sua mãe ou por alguém que lhe socorra. Bill fica paralisado. Não consegue agir. E assim permanece, meio letárgico. Olhando pela janela, enquanto a vida acontece. Por meio de flashbacks, descobriremos que sua versão menino era a de uma criança dócil, fã livros de Charles Dickens, de música e de quebra-cabeças. Em suas memórias, perceberá aos poucos como a infância relativamente feliz ao lado de sua mãe Sarah (Agnes O'Casey), escondia segredos que refletiriam no presente. E certamente não é por acaso que ao encontrar uma jovem escondida no mesmo depósito de carvão do convento, dias depois, ela revele que se chama Sarah (Zara Devlin). E que está grávida de cinco meses.

[SPOILERS A PARTIR DAQUI] Quem já assistiu ao ótimo - e sempre impressionante - Em Nome de Deus (2002) que, infelizmente não está disponível em nenhuma plataforma de streaming -, não demorará para compreender do que se tratam aqueles conventos. Famosas na Irlanda, especialmente no século passado, as Lavanderias Madalena - um tipo de asilo católico para mulheres - funcionavam como um espaço para onde eram enviadas mulheres supostamente pecadoras ou depravadas. Ou mesmo órfãs, abandonadas pelas famílias, vítimas de abuso (sim), prostitutas e outras. Lá, além de terem sua liberdade cerceada, eram escravizadas e humilhadas, com jornadas de trabalho excruciantes e sem espaço para discussão das penas. Sarah, a jovem grávida, tenta escapar de todas as formas desses rituais de tirania travestidos de "amor de Deus" e busca por salvação. Em confronto com a madre superiora (e asquerosa), Mary (Emily Watson), a religiosa tentará comprar o silêncio de Bill. Mas talvez ela não possa comprar as atitudes. E, bom, pode ser o caminho para que as portas, vagarosamente, se abram.

Nota: 8,0