De: Julia Jackman.Com Emma Corrin, Maika Monroe, Nicholas Galitzine, Amir El-Masry e Charli XCX. Fantasia / Romance, Reino Unido, 2025, 91 minutos.
Era uma vez três irmãs - Rosa, Mina e Caterina -, que viviam com o pai, um capitão do mar. Após a morte da mãe das jovens, o pai prepara-as para aquilo que a sociedade patriarcal espera delas: ser boas esposas e mães, obedientes e com habilidades domésticas. Só que o homem não sabe que, em segredo, o trio aprendeu algo proibido nesse universo alternativo: ler e escrever. Quando o pai retorna de viagem com um comerciante rico a tiracolo, Rosa é escolhida para casar-se com o rapaz, acreditando no fato de ela ser dócil, virtuosa e santa. Só que essa não é a personalidade real de Rosa, uma moça inteligente, extrovertida e dotada de habilidades artísticas. E mesmo que o matrimônio pareça feliz em um primeiro momento, com as convenções estabelecidas, a confiança é quebrada quando Rosa, num instante afetivo, escreve I love you, em uma janela embaçada. É o suficiente para que o marido surte com a ideia de a própria esposa ser capaz de escrever seus próprios pensamentos. Sim, escrever. Ela se torna uma ameaça, uma bruxa, impura, vadia.
Vamos combinar que a história dentro da história narrada por Hero (Emma Corrin) à Cherry (Maika Monroe), em 100 Noites de Desejo (100 Nights of Hero), parece ainda dizer muito sobre os tempos sombrios atuais - em que políticos de extrema direita nutrem um desejo nem tão secreto assim de que suas esposinhas de bem sejam apenas donas de casa submissas, do modo mais tradicional possível. De preferência sem independência, sem vontades, sem desejos pessoais. Sem voto. Sem ideias (subversivas). Sem leitura e escrita. Enfim, vocês sabem como opera esse campo. Ao cabo, a obra dirigida por Julia Jackman e que é inspirada na graphic novel de Isabel Greenberg, é um conto de fadas esteticamente belo, que pega algumas ideias de As Mil e Uma Noites, para contar a história de Cherry, que é deixada em seu castelo por seu marido negligente Jerome (Amir El-Masry), que resolve testar sua fidelidade após a chegada do sedutor Manfred (Nicholas Galitzine) ao local.
Caso Cherry ceda às investidas de Manfred, Jerome lhe concederá direito sobre o reino. Restando à adúltera Cherry o destino inevitável das bruxas desviantes do período: a morte. De preferência de alguma forma bem cruel. Só que Hero, para além de criada de Cherry, é uma amiga pessoal. Uma amiga talvez até demais - e são várias as sugestões homoeróticas do filme que estreou na última semana na Mubi. Não apenas entre a dupla central de mulheres, mas também entre Jerome e Manfred - o que é reforçado pelo fato de o primeiro ser simplesmente incapaz de confirmar uma noite de núpcias adequada, como prevê a tradição. "Quero ser tocada, pra gerar um filho, claro", verbaliza à jovem de forma meio desajeitada, em certa altura. Mas Hero parece estar um passo à frente dessa ameaça que parece se espalhar de todas as formas nos corredores desse universo gerido por homens velhos e cheios de códigos morais rígidos. É por isso que ela mesma sugere contar a história de Rosa (vivida por Charli XCX) e suas irmãs. Como uma forma de reter meio que eternamente por esses três meses e pouco, as investidas de Manfred.
Em geral, o que temos aqui é uma produção que consegue ser ao mesmo tempo modesta, mas também sofisticada - além de cheia de metáforas e simbolismos que apontam os dedos para o absurdo da dominação dos homens, com o uso da religião como veículo. Nesse mundo alternativo, o idílio pacífico pensado por Kiddo é quebrado quando seu pai, um certo Birdman (Richard E. Grant) resolve criar um código rígido, especialmente no que diz respeito à gênero. Para Cherry, ter um filho pode até ser um objetivo - até mesmo para que ela sobreviva nesse espaço em que mulheres parecem ter apenas uma "utilidade" -, mas essa ideia vai sendo meio que dissipada, conforme ela mergulha no universo fantástico de Hero (que, sim, tem esse nome não por acaso). Com ótimos figurinos e desenho de produção, esse é aquele tipo de narrativa cheia de carisma, que não carece de grandes acontecimentos ou reviravoltas para passar o seu recado. Talvez em tempos tão brutos, um pouco de realismo fantástico não faça mal.
Nota: 7,0

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