Pense num encontro entre o Frank Ocean e o Beach House ou entre o Prince e o Dirty Projectors e talvez tenhamos algo próximo da sonoridade do Steve Lacy. Entre o sonhador e o etéreo - às vezes primaveril, noutras essencialmente urbano - Oh Yeah?, terceiro registro de inéditas do californiano e ex-integrante do ótimo coletivo The Internet, se apresenta como uma evolução natural daquilo que foi entregue no disco anterior, o elogiado Gemini Rights (2022), que tem o hit Bad Habit e o fez vencer um Grammy, mas sem abrir mão da simplicidade que é quase uma marca registrada. Aliás, é meio curioso perceber como a música de Lacy consegue ser minimalista, sutil - tendo sempre por base sempre o seu vocal ondulante em falsete -, mas ao mesmo tempo expansiva, ampla. Parece algo feito pra cantar sozinho no banho, ou em apresentações ao vivo, acompanhados daqueles que amamos.
Sim, suas letras pode ser pueris ou até bobas, como no caso da sentimental The Feeling, sobre vulnerabilidade e busca de aceitação em um relacionamento (Quando transamos no tapete / Me faz flutuar como Alladin), mas há algo meio magnético ali. Uma cola que gruda e que faz com que a gente viaje, como se estivesse em um registro de essência psicodélica, que nos leva para o espaço e nos faz voltar em segundos. Um outro exemplo nesse sentido pode ser percebido na existencialista e sensual Pure Colour, que une o R&B e o trip hop em uma experiência lânguida, que tem participação de Erikah Badu. Já o folkzinho erótico e irônico Show You Me, parece algo que poderia estar no mesmo bloco musical da rádio indie, com nomes como Animal Collective (em seus momentos menos urgentes, como talvez no álbum Feels, 2005) e MGMT. Enérgico e envolvente, por vezes tenho a impressão de que esse disco ainda não foi percebido direito por crítica e público. Mas ele só melhora a cada novo play.
Nota: 9,0

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