Discos como o homônimo lançado pela artista trans paraense Íris da Selva nos permitem perceber que ainda há tempo para se apaixonar pela MPB da moda de viola e da flauta, que une o rural e o urbano para falar de noites enluaradas, fitas de pipa que "beijam o sol", crianças que brincam nas ruas - algo que pode soar inocente e o puro, mas também visceral e político, ainda mais se investigarmos para além das melodias primaveris, bucólicas e contemplativas que regem o trabalho. Como é o caso, por exemplo, na sutil poética Tratado de Paz, que aborda corpo e identidade de gênero (Íris se apresenta como não-binária), em uma letra sobre autoaceitação e busca por identidade (Será difícil entender / Que eu não quero parecer / Com mais ninguém além de mim? / Será difícil aceitar / Não sou moça nem rapaz / Sou meu tratado de paz).
Já a singela Domingo de Tarde tem letra entre o esperançoso e o melancólico, trazendo o carimbó como um gênero que, aqui e ali, se espalha pelo registro, unido a outros como o folk e o rock rural. Ao cabo, como nos próprios materiais de divulgação da artista, são "canções que carregam a sensibilidade e a força das encantarias das águas em sua poética musical. A espiritualidade é seu elemento condutor e suas composições procuram descortinar o dia a dia , na busca de apresentar ao mundo sua percepção das delicadezas e entrelinhas da vida". Em tempos em que vida parece tão corrida, apressada, tecnológica, em que tudo parece "pra ontem", poder buscar a calma para apreciar um registro que olha para o íntimo mas sem soar piegas ou sem personalidade é algo a ser reconhecido. Íris consegue essa beleza no simples. Como fica evidente em Um Lugar Pra Ir, Bem e Algo Tão Doce.
Nota: 9,0

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