quinta-feira, 2 de julho de 2026

A Volta ao Mundo em 80 Filmes - Hanami (Cabo Verde)

De: Denise Fernandes. Com Sanaya Andrade, Dailma Mendes e Alice da Luz. Drama, Cabo Verde / Portugal / Suíça, 2024, 101 minutos.

A passagem em que as personagens discutem o conceito de "hanami", no filme caboverdiano de mesmo nome, é meio breve, quase imperceptível. O que não reduz o seu impacto. Extraída de um conceito japonês, hanami alude a ideia de contemplação frente à transitoriedade das coisas. É observar algo que pode ser belo, mesmo que fugidio. As pessoas, os lugares, os amores, as amizades, aquilo que realmente importa e meio que se modifica o tempo todo. Nos escapa. E todo esse ciclo de vida, de idas e vindas, de partidas e de retornos e de memórias que permanecem e escapam parece ser central na obra contemplativa da diretora Denise Fernandes, e que está disponível na Reserva Imovision. Para a protagonista de Hanami, Nana (Dailma Mendes na infância e Sanaya Andrade na adolescência) o caráter transformador da experiência humana tem início quando ela ainda é uma criança pequena: com sua mãe, Nia (Alice da Luz), lhe deixando para trás, em busca de uma vida melhor.

Em geral o que temos aqui é um fiapo de história que, não demora, se converte em um experimento imersivo, em que as amplas paisagens, a trilha sonora enigmática, os silêncios contínuos e todo o conjunto tão contemplativo quanto fantástico, ganha força conforme a narrativa se desenvolve. Nesse sentido, a obra funciona quase como um veículo permeado por divagações poéticas e geograficamente extensas, que são a alegoria perfeita para o sentimento que invade aqueles que acompanhamos. Tudo é amplo, mas íntimo, espalhado, mas discreto. Quando Nia deixa a filha ainda bebê na ilha que fica no sopé de um vulcão, a imagem de várias mulheres ao mesmo tempo amparando a pequena, nos permite lembrar do conceito de coletividade, de comunidade, especialmente no que diz respeito a ideia de criar uma criança. A rede de apoio recebe contornos reais. Pessoas de carne e osso que navegarão em volta dos mistérios de Nana.

 


E por mais reflexivo que o projeto seja, não são poucos os momentos em que a mera passagem do tempo recebe outras tintas, outros significados na rotina dos nativos do arquipélago escurecido e de natureza discreta que acompanhamos. Em um momento curioso, como forma de evidenciar a escassez material e financeira dos que ali residem, o tio de Nana (seu nome é Manuel) verbaliza todos os ingredientes que compõem a receita de um tiramisu. Para ao final de cada item citado, afirmar que eles não têm nada daquilo à disposição. O que não o impede de sonhar ser um confeiteiro - o que é corroborado pela volúpia com que as crianças consomem os doces que ele elabora. Da mesma forma, ruminações filosóficas sobre vasos quebrados que podem se tornar mais fortes após remendados - mais sólidos, ainda se unidos -, funcionam como uma metáfora quase espectral do ambiente. 

A paz e a tranquilidade que residem na rotina - de colher ovos pela manhã, ouvir os pássaros cantar e brincar de esconde esconde entre crianças -, é quebrada quando Nana passa a sofrer de uma severa e um tanto inexplicável febre. O que a leva ao pé da montanha na tentativa de obter uma cura - que pode vir, por exemplo, com a obtenção de uma planta conhecida como sabão de feiticeira (e que é solicitada por sua avó). No caminho, outras figuras excêntricas, como o avô Orlando, que opera como um curandeiro do local, além de um pesquisador da área de vulcões chamado sugestivamente de Kenji Mizoguchi - e certamente esse aspecto não é aleatório, dada a preferência do antigo diretor japonês por obras pictóricas, de fluidez lenta, de planos longos e cheios de simbolismos que, de quebra ainda conectam o conceito de hanami -, movimentam a trama, que se desenrola em direção ao mais esperado desfecho: o de que o mundo anda e cabe a nós sermos capazes de contemplar sua beleza. Justamente porque tudo é passageiro.


Nenhum comentário:

Postar um comentário