Finalmente o Oscar aconteceu e passamos a régua oficialmente na temporada de premiações - e, aqui, algumas considerações sobre a cerimônia ocorrida na noite de ontem.
1) Bom, antes de mais nada parece até papo de perdedor o fato de termos tido quatro indicações (ou cinco, se somarmos o fotógrafo Adolpho Veloso por Sonhos de Trem), mas o caso é que a grande maioria das projeções indicava meio que exatamente o que aconteceu. Em nenhuma das categorias éramos, de fato, favoritos, por mais que mantivéssemos a torcida e o sonho de pé, Timothée Chalamet perdeu espaço, mas o Michael B. Jordan tinha crescido na reta final. Valor Sentimental nunca deixou de estar um passo a frente com suas nove indicações e uma campanha sólida para conceder o primeiro Oscar da história à Noruega. Sobre o elenco, o nosso é lindo e talvez merecesse o reconhecimento. Mas vocês acham mesmo que na primeira vez na história o prêmio iria para algum filme que não fosse de Hollywood? No mais, valeu a festa, a torcida e, principalmente, a visibilidade para o nosso cinema, que alcança muitos públicos, se consolidando como um polo forte de cinema, como sempre fomos na verdade. Ah, e não dá pra esquecer que temos o molho. E quem tem o molho NUNCA PERDE!
2) Não sei se vocês ficaram com essa impressão, mas por mais que estivéssemos torcendo alucinadamente por O Agente Secreto, me pareceu como um todo uma cerimônia meio morna do ponto de vista do impacto mesmo. Por gosto pessoal, não acho que o Conan tenha a acidez na medida certa de um Jimmy Kimmel - tanto que, quando ele entrou no palco, fez uma das melhores piadas da noite. Não é que precisasse ser um show de fundo político, mas os Estados Unidos vive meio que um caos permanente desde a entrada do laranjão para o segundo governo e, onde estavam os nossos astros protestando? Tirando uma onda? Batendo de frente? Sim, sei que teve brochezinho fuck ICE e, aqui e ali, alguma piada sobre, mas eu achei foi pouco. Menos mal que os vencedores de categorias menores fizeram o trabalho de lembrar que uma premiação com tanta visibilidade, também é oportunidade para colocar o dedo na ferida.
3) Também foi uma cerimônia meio que sem grandes surpresas. Nas categorias de atuação, por exemplo, as bolsas de apostas meio que acertaram a respeito dos vencedores. O mesmo valendo para roteiro, direção, filme em língua estrangeira, animação e diversas técnicas. Nesse sentido, os bolões podem ter sido meio sem emoção, já que todo mundo votou meio igual. Pra não dizer que foi tudo previsível, a vitória de Mr. Nobody Against Putin em Documentário não era esperada. Ainda que essa seja uma das categorias mais estranhas do planeta, com ausências inacreditáveis e vitórias historicamente improváveis.
4) Ainda sobre as categorias de atuação, entre os bons momentos da noite acho que dá pra incluir a vitória da carismática Amy Madigan, por A Hora do Mal. Eu até não morro de amores por esse filme, mas é sempre legal quando uma obra meio que quebra a lógica e vai ganhando força no transcorrer da temporada - desbancando outras que teriam mais força ou mais apelo. Ok, ela parecia meio atrapalhadinha na hora dos agradecimentos, mas ficou a impressão de que a própria Academia deu a ela um tempinho a mais pra se organizar nas falas.
5) Ponto altíssimo da noite, a apresentação da canção I Lied to You, de Pecadores, com todo o aparato musical de uma grande apresentação. O filme de Ryan Coogler, aliás, venceu quatro estatuetas, contra seis de Uma Batalha Após a Outra, que pode ser considerado o grande campeão da noite.
6) Sinceramente, uma coisa que não simpatizo muito na premiação, é essa coisa de que tudo meio que tem de virar um teaser, um produto ou uma propaganda para algo que está por vir. É Anna Wintour no palco pra lembrar o público sobre O Diabo Veste Prada, é os atores da Marvel fazendo teatrinho sem graça, aludindo aos filmes ainda mais sem graça. Eu sei que tudo ali não passa de um negócio, no fundo, mas acho que seria mais orgânico sem esse tipo de coisa. Já as piadinhas sobre uso de IA e outras tecnologias, especialmente aquela parte em que houve um deboche com as irritantes interrupções do Youtube, que deve transmitir a premiação a partir do ano que vem (ou isso também era piada?), gostei demais!
7) Todo o mundo falou dos esquecimentos bizarros do In Memorian, mas verdade seja dita: a forma como essa parte transcorreu desta vez foi bem bonita, com ex-companheiros lembrando de algumas personalidades que se se foram (sendo o destaque os 17 atores que trabalharam com Rob Reiner). Aliás, foi um ano de perdas de grandes astros, como Catherine O'Hara e Robert Redford, então é justo que essa parte tenha sido mais "engordada".
8) Importantíssimo momento da noite: a vitória de Autumn Arkapaw, que se tornou a primeira mulher negra a vencer o Oscar na categoria Fotografia (e foi comovente ver ela pedindo para as mulheres da sala se levantarem). Seu discurso foi poderoso, assim como o de outras vencedoras, como Jessie Buckley.
9) Continua sendo absolutamente estranho o hábito da Academia de subir o som para que as pessoas se retirem do palco em meio aos discursos, especialmente nas categorias menores. Foi constrangedor o que rolou com a galera de Two People Exchanging Saliva, que praticamente foi expulsa do palco à força.
10) O lance de um novo meme do DiCaprio? Ok, legalzinho. Que é o saldo dessa premiação. Apenas legalzinha. E ano que vem tem mais!

Nenhum comentário:
Postar um comentário