segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Novidades em Streaming - O Último Azul

De: Gabriel Mascaro. Com Denise Weinberg, Rodrigo Santoro e Miriam Socarras. Ficção Científica / Drama / Fantasia / Aventura, Brasil / México / Chile / Holanda, 2025, 87 minutos.

Talvez um pouco menos político ou panfletário do que no anterior (e ótimo) Divino Amor (2019), mas igualmente relevante em seu exame um tanto niilista de uma sociedade cheia de contradições, em que defensores da família tradicional brasileira poderão incorrer em apoio a políticas que, justamente, ignoram a pluralidade desse tipo de estrutura de parentesco. Aqui, a trama lembra um pouco o ainda não muito conhecido livro nacional Velhos Demais Para Morrer (2020), de Vinícius Neves Mariano, sobre uma sociedade que entra em colapso econômico após os idosos se tornarem a maioria da população. O que os obriga a fugir, para tentar burlar o seu destino. Em O Último Azul, o tema do etarismo também está no centro, em uma distopia semelhante à de Mariano, com os velhos sendo enviados a uma espécie de colônia comandada pelo governo, sob a desculpa de dar a eles uma velhice digna.

Nas aparências, as intenções do Estado parecem boas. Os empregados que conduzem os idosos se portam de forma gentil, a ponto de concederem distinções aos aposentados que alcançam a idade limite - e não deixa de ser excentricamente divertido ver Tereza (a ótima Denise Weinberg), chegando em casa depois de um dia de trabalho no frigorífico, se deparando com empregados do governo colocando uma espécie de coroa de louros banhada a ouro na fachada da modesta habitação da protagonista. Sim, isso pode sugerir algo simpático - "a senhora agora é um patrimônio vivo nacional", aponta a jovem que gruda a distinção. Mas não deixa de ser uma espécie de marcador que lembrará a todos a sua volta de que, ali, naquela casinha, reside uma velha. Que já deveria ter ido pra tal da colônia. Com tudo piorando quando Tereza se dá conta de que já deveria ter se aposentado de forma oficial há dois anos - ela está com 77 e a idade limite é 75.

 


Com receio, em um cenário de incerteza, Tereza, tenta buscar mais informações - sendo barrada em qualquer tentativa de deslocamento. "Sabotar a atividade produtiva nacional é crime grave", lhe lembra outro burocrata. A protagonista queria ainda fazer muita coisa - como por exemplo, voar de avião, algo que nunca teve oportunidade. Mas o simples ato de comprar uma passagem se torna pesaroso. Há a necessidade de aval de algum familiar - sendo a pessoa mais próxima a preocupadíssima filha Joana (Clarissa Pinheiro) que, pelo visto, não vê a hora de a velha ir pra Colônia. Sem muita alternativa, Tereza resolve desviar de sua rota. Pegando um barquinho para a pequena Itaquatioca, momento em que ela estabelece amizade com o enigmático barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro), que lhe apresentará alguns mistérios da natureza profunda, como a existência de uma espécie de caracol mágico, capaz de revelar o futuro a quem tiver contato com a sua gosma. 

Nesse ponto, a obra também difere de Divino Amor, por apostar em elementos que unem o bucólico e o onírico como forma de dar andamento às ações mundanas. O que é reforçado por um desenho de produção de beleza naturalista e caótica em igual medida - como no momento em que a dupla passa por uma espécie de "cemitério" de pneus que fica na taipa do riacho -, e por uma trilha sonora de tintas envolventes. Simples, curiosa e divertida, a produção, que venceu o Grande Prêmio do Júri no mais recente Festival de Berlim e que chega à Netflix, expõe a insatisfação da população em geral com o afastamento obrigatório de seus familiares - "devolvam o meu avô", "gente velha não é mercadoria" dizem pixações nas paredes -, reservando para o terço final uma surpresa a respeito dos caminhos possíveis para driblar as imposições do Estado. Ao fim e ao cabo, os caminhos envolvem poder, religião e um ímpeto para a engambelação. Mas sem abrir mão do afeto. Nada mais Brasil real do que isso.

Nota: 8,5 

 

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